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24 de fev. de 2010

Quem são exatamente os evangélicos?

Parece que uma nova tempestade ou, pelo menos, um vendaval se formou recentemente ao redor do termo "evangélico". Um número crescente daqueles que identificam como evangélicos está compreendendo que nem todos crêem nas mesmas coisas, nem mesmo em relação às doutrinas essenciais. Em resposta a isso, alguns começaram a escrever manifestos que tentam reafirmar as características de uma identidade evangélica. Outros estão escrevendo livros e realizando conferências que têm como alvo recentralizar o movimento como um todo. Outros decidiram que é melhor descartar o termo e chamar a si mesmos de "pós-evangélicos".
Esse problema não é novo. Nunca foi fácil determinar quem são os evangélicos, porque o evangelicalismo sempre foi um movimento diversificado. Lutero queria que seus seguidores fossem chamados de "evangélicos", significando pessoas do evangelho (foram os seus inimigos que apelidaram seus seguidores de "luteranos"). O outro braço da Reforma também se alegrava em compartilhar da designação evangélica (os luteranos ortodoxos cunharam o termo "calvinistas" como um modo de fazerem distinção entre seu próprio ponto de vista e opiniões reformadas sobre a Ceia do Senhor). Depois, com o advento do pietismo e do avivalismo, o rótulo "evangélico" tomou muitas direções. Hoje o termo é uma designação tão ambígua que alguns historiadores julgam que a melhor definição é a de George Marsden: "Qualquer pessoa que gosta de Billy Graham".
No entanto, com um pouco de perspectiva histórica, não é difícil perceber porque essas tempestades, ou vendavais, são constantes: o evangelho está se tornando para sempre separado dos evangélicos; essa é a razão por que é tão difícil saber quem são os evangélicos.
PIETISMO E AVIVALISMO
O termo "evangélico" entrou em uso comum durante a Reforma como um esforço para esclarecer e proclamar o evangelho. Anglicanos, presbiterianos e, no Continente, os seguidores de Bucer, Calvino, Knox e Beza também gostavam do termo "reformado" porque o seu objetivo não era começar uma nova igreja ou denominação, e sim reformar a igreja histórica. Além disso, as igrejas luteranas e reformadas, apesar de suas importantes diferenças, mantiveram-se lado a lado em defender o evangelho de distorções, tanto de Roma como dos anabatistas.
O advento do pietismo e do avivalismo complicou as coisas. A princípio, o pietismo era um movimento de reforma dentro das igrejas luteranas e reformadas, estimulando uma conexão mais profunda entre a doutrina e a piedade. Por fim, o pietismo começou a se parecer cada vez mais com a espiritualidade anabatista. O avivalismo (inglês e americano) também empurrou o pietismo para longe de suas raízes reformadas.
Um preço crucial de admissão ao arraial evangélico durante o Primeiro Grande Avivamento era ser pró-avivamento. Muitos ministros luteranos e reformados eram ambivalentes quanto à própria idéia de esperar tempos de avivamento, suspeitando que ele abrigava uma opinião inferior do ministério regular da igreja. Mas no Segundo Grande Avivamento não houve questionamentos. O foco mudou de uma ênfase na obra salvadora de Deus, em Cristo, por meios dos instrumentos ordenados por Deus, para uma ênfase nas decisões e esforços humanos, por meio de métodos e "estímulos" pragmáticos. O principal personagem por trás do segundo avivamento, Charles G. Finney (1792-1875), até rejeitava a doutrina do pecado original, da expiação vicária, da justificação somente pela fé e o caráter sobrenatural do novo nascimento.
O Segundo Grande Avivamento, representado por Finney, criou um sistema de fé e prática adequado a uma nação autoconfiante. O evangelicalismo – ou seja, o protestantismo americano do final do século XVIII – foi um instrumento para inovações. Na doutrina, serviu à preferência da modernidade quanto a uma confiança na natureza e no progresso humanos. Na adoração, transformou o ministério centrado na Palavra e nas ordenanças em entretenimento e reforma social, criando o primeiro sistema de estrelas na cultura de celebridades. Na vida pública, confundiu o reino de Cristo com o reino deste mundo e imaginou que o reino de Cristo poderia ser tornado visível por meio de atividades sociais, morais e políticas dos santos. Havia pouco espaço para qualquer coisa imporante que fosse capaz de restringir o movimento, disciplinar suas celebridades empresariais ou questionar seus "avivamentos", à parte de sua freqüente publicidade de curta duração.
Em algum ponto ao longo do caminho, o evangelho se tornou separado da evangelização; a mensagem ficou subserviente aos métodos. A religião americana se tornou digna da caracterização de Dietrich Bonhoeffer: "Protestantismo sem Reforma".[i]
"Encontros extremos", comentou B. B. Warfield, no final do século XIX, a respeito dos pietistas conservadores e dos racionalistas liberais. "Os pietistas e os racionalistas têm caçado juntos, em duplas, e abrandado as suas contendas juntos. Eles podem diferir quanto a por que estimam a teologia um traste e por que não querem que um futuro ministro desperdice seu tempo em obtê-la. Um ama tanto a Deus, e o outro o amam tão pouco, que não se preocupa em conhecê-lo".[ii]
Herman Bavinck, o colega holandês de Warfield, observou: "Movimentos poderosos, como aqueles que o pietismo fez surgir na Alemanha e que o metodismo desencadeou na Inglaterra e na América, todos eles tinham em comum o fato de que mudaram o centro de gravidade do objeto da religião para o sujeito da religião. A teologia seguiu esse caminho nos sistemas produzidos por Kant, Schleiermacher e suas escolas".[iii] A ala erudita do pietismo protestante na América tendeu a ser assimilada pelo modernismo, enquanto a sua ala fundamentalista produziu uma colheita sempre nova de jovens cínicos e iludidos que achavam a outra uma mera opinião atraente. No entanto, modernistas como Harry Emerson Fosdick e fundamentalistas como Bob Jones podiam citar Finney e seu legado com afeição.
A CORRENTE REFORMADA
Entretanto, a corrente reformada do evangelicalismo americano não havia se esgotado completamente. O Princeton Antigo foi uma fonte especialmente fecunda para renovação e defesa do legado do verdadeiro evangelicalismo. Luteranos como C. F. W. Walther, presbiterianos como Archibald Alexander, congregacionalistas como Timothy Dwight, episcopais como o bispo William White e batistas como Isaac Backus podiam reconhecer uma essência de convicções reformadas que tinham em comum contra a maré crescente de infidelidade. Muito proveito resultou (e ainda resulta) da cooperação evangélica no campo missionário, nos ministérios diaconais comuns e na erudição fiel.
Clérigos como Warfield e Hodge se consideravam evangélicos no sentido distintamente reformado e se esforçaram por trazer o protestantismo americano à harmonia com essa definição. Eles também eram firmemente comprometidos e envolvidos de modo pessoal com os amplos esforços missionários nos Estados Unidos e no exterior, e isso os colocava em constante comunhão e cooperação com outros evangélicos.
Apesar disso, Warfield começava a perceber que a tensão entre opiniões competidoras da identidade evangélica tornava mais difícil o permanecer como apoiador irrestrito da causa evangélica. Em 1920, certo número de evangélicos apresentou "um plano de união das igrejas evangélicas". Warfiel avaliou o "credo" desse plano, enquanto era estudado por presbiterianos, e observou que a nova confissão proposta "não contém nada que não seja crido pelos evangélicos", mas "não contém nada que não seja crido... pelos adeptos da Igreja de Roma". Ele escreveu:
Não há nada sobre a justificação pela fé neste credo. E isso significa que todos os ganhos obtidos naquele grande movimento religioso que chamamos de Reforma são lançados pela janela... Não há nada a respeito da expiação no sangue de Cristo neste credo. E isso significa que todo o ganho da longa busca medieval pela verdade é lançado sumariamente fora... Não há nada sobre o pecado e a graça neste credo... Não precisamos mais confessar nossos pecados; não precisamos reconhecer a existência de tal coisa. Precisamos crer no Espírito Santo somente como "guia e consolador" – os racionalistas não fazem o mesmo? E isso significa que todo o ganho que o mundo inteiro obteve dos intensos conflitos de Agostinho é lançado fora juntamente com as outras coisas... Também é verdade que os ganhos obtidos dos debates que ocuparam a primeira era da igreja cristã, por meio dos quais atingimos o entendimento das verdades fundamentais da Trindade e da deidade de Cristo, são lançados fora por este credo. Não há Trindade neste credo; não há deidade de Cristo – ou do Espírito Santo.[iv]
Se a justificação pela fé é o âmago do evangelho, Warfield questionou, como podem "os evangélicos" omiti-la de sua confissão de fé comum? Ele perguntou: "Este é o tipo de credo que o presbiterianismo do século XX acha suficiente como base para cooperação nas atividades evangelísticas? Então, ele pode prosseguir suas atividades evangelísticas sem o evangelho, pois este credo nega completamente o evangelho". De novo, o evangelho se separara dos evangélicos. "Comunhão é uma palavra excelente", concluiu Warfield, "e um grande dever. Mas a nossa comunhão, de acordo com Paulo, tem de ser no ‘progresso do evangelho’".[v]
O diagnóstico do cristianismo americano oferecido por Dietrich Bonhoeffer ("Protestantismo sem Reforma"), depois de sua viagem para preleções nos Estados Unidos, parece vindicado. Ele escreveu:
Deus não tem dado qualquer reforma ao cristianismo americano. Ele lhe deu fortes pregadores avivalistas, clérigos e teólogos, mas nenhuma reforma da igreja de Jesus Cristo por meio da Palavra de Deus... A teologia americana e a igreja americana como um todo não têm sido capazes de entender o significado do "cristicismo" pela Palavra de Deus e de tudo que isso significa. Eles não entendem que o "criticismo" de Deus toca até a religião, a cristandade da igreja e a santificação dos cristãos e que Deus fundou a sua igreja acima da religião e da ética... Na teologia americana, o cristianismo é essencialmente religião e ética... Por causa disso, a pessoa e a obra de Cristo foram, quanto à teologia, colocados em segundo plano e permanecem mal entendidos, porque não são reconhecidos como o único fundamento do juízo radical e do perdão radical".[vi]
ONDE ESTÁ O EVANGELICALISMO HOJE?
Hoje, alguns dos maus frutos do pietismo e do avivalismo subsistem. Muitos têm por certo que aqueles são muito interessados em doutrina são os que menos se interessam por alcançar o perdido (ou, como se diz hoje, "os sem-igreja"). Os evangélicos são freqüentemente desafiados a escolher entre tradicional e missional, dois campos que são descritos tipicamente como nada mais do que caricaturas. Os primeiros evangélicos se reuniam, simultaneamente, ao redor de manter o evangelho correto e de anunciá-lo, mas hoje a coalizão é definida, cada vez mais, por seu estilo ("contemporâneo" versus "tradicional"), sua política ("conservadorismo compassivo" ou a mais nova redescoberta de raízes progressistas avivalistas) e suas principais estrelas musicais, e não por suas convicções a respeito de Deus, da humanidade, da salvação, do propósito da história e do julgamento final.
Entendo que nem todos esses "credos" são hoje tão minimalísticos como aquele que Warfield avaliou. E o evangelicalismo americano não tem permanecido sem os seus defensores da fé. Em sua declaração de fé, a Associação Nacional de Evangélicos afirma a Trindade, a deidade de Cristo, "a morte vicária e expiatória, por meio do derramamento do sangue de Cristo", e a necessidade de renascimento espiritual. Contudo, ali não há nenhuma menção da justificação – o artigo sobre o qual uma igreja se mantém de pé ou cai –, e a única convicção concernente à igreja é a crença em "uma unidade espiritual de crentes no Senhor Jesus Cristo". O batismo e a Ceia do Senhor não são nem mencionados.
Ironicamente, a genuína fé evangélica se encontra com freqüência fora do movimento evangélico e dentro do evangelicalismo ela é contestada em muitas frentes. Tem se tornado cada vez mais comum os evangélicos questionarem a autoridade (e não menos a suficiência) da Escritura e as doutrinas básicas em torno das quais evangélicos de diferentes segmentos eram capazes de se unir. De acordo com cada grande pesquisa que tenho visto, a maioria dos evangélicos americanos desconhece muitas das verdades básicas do cristianismo. Em vez disso, há um amplo "deísmo moralista e terapêutico", como comprovou o sociólogo Christian Smith. O fato de que pessoas que crescem em igrejas evangélicas provavelmente – e, em alguns estudos, mais provavelmente – aceitarão esse tipo de espiritualidade amorfa, deixando de lado os credos cristãos, pode fazer você perguntar o que há de "evangélico" no "evangelicalismo". O evangelho abandonou os evangélicos?
Ao mesmo tempo, encontramos freqüentemente cativantes defesas do cristianismo histórico, incluindo as percepções da Reforma, procedentes daquelas que poderiam parecer as fontes mais improváveis.
UM PARQUE TRANQÜILO
Por tudo isso, ainda estou convencido de que há um lugar para sermos "evangélicos". Por quê? Em palavras simples, porque ainda temos o evangelho. Em minha opinião, o evangelicalismo serve melhor como um parque tranqüilo, à semelhança dos parques públicos no centro das cidades da antiga Nova Inglaterra, para todos os que afirmam este evangelho. É um lugar em que os cristãos de igrejas diferentes se encontram para discutir o que têm em comum, bem como as suas diferenças. Ajudam um ao outro a se manterem honestos.
Em sua fase presente, a igreja é um povo peregrino. Acho que a confissão reformada é o mais fiel resumo dos ensinos da Bíblia. Contudo, a minha fé é fortalecida por encontrar-me com cristãos de tradições diferentes que me desafiam a pensar mais profunda e completamente a respeito das ênfases que tenho perdido.
Esse lugar tranqüilo também provê uma área comum na qual os cristãos podem testemunhar aos não-cristãos a esperança que compartilham e um espaço comum no qual nossos vizinhos de determinada comunidade podem ser servidos pelo amor cristão. O perigo surge quando o parque se torna dominado por uma atmosfera quase pelagiana e, confiando em si mesmo, imagina que sua Grande Tenda é a catedral que reduz as igrejas ali estabelecidas a simples capel.
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[i] Dietrich Bonhoeffer, "Protestantism without Reformation", em No Rusty Swords: Letters, Lectures and Notes, 1928-1936, ed. Edwin H. Robertson, trad. Edwin H. Robertson e John Bowden (London: Collins, 1965), p. 92-118.
[ii] B. B. Warfield, "Our Seminary Curriculum", em Selected Shorter Writings of Benjamin B. Warfield – I, ed. John E. Meeter (Nutley, NJ: Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1970), p. 371.
[iii] Herman Bavinck, Reformed Dogmatics: Vol. 3: Sin and Salvation in Christ, ed. John Bolt, trad. John Vriend (Grand Rapids: Baker Academic, 2006), p. 556.
[iv] B. B. Warfield, "In Behalf of Evangelical Religion", em Selected Shorter Writings of Benjamin B. Warfield – I, ed. John E. Meeter (Nutley, NJ: Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1970), p. 386.
[v] Ibid., p. 387.
[vi] Dietrich Bonhoeffer, op. cit.
Autor: Michael Horton obteve seu B.A pelo, Biola University; seu mestrado pelo Westminster Seminary California e seu Ph.D pela University of Coventry e Wycliffe Hall, Oxford. É presidente do White Horse Media, Professor de teologia e apologética no Westminster Theological Seminary na Califórnia, nos EUA e editor chefe da revista Modern Reformation. É autor de vinte livros, sendo que vários já foram publicados em português.
Traduzido por: Pr. Wellington Ferreira
Revisado por: Tiago Santos
Copyright:
© 9Marks 2010
© Editora FIEL 2010.
Traduzido do original em inglês: Who Exactely are the evangelicals? Publicado por 9Marks.

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26 de out. de 2009

Acompanhe ao Vivo as Mensagens da 9ª Conferência Fiel em Portugal pela Internet


A Editora Fiel traz a você a oportunidade de acompanhar na integra e ao vivo as palestras da 9ª Conferência Fiel em Portugal.

Para assistir as mensagens você deve:


1 - Acessar o link www.editorafiel.com.br/live
2 - Cadastrar-se;
3 - Informar seu e-mail de cadastro.

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18 de set. de 2009

A relevância da pregação

D. Martyn Lloyd-Jones afirma que a “mais urgente necessidade da Igreja Cristã da atualidade é a pregação autêntica; e, posto ser a maior e mais urgente necessidade da Igreja, é óbvio que também é a maior necessidade do mundo”.(1) Essa necessidade certamente não mudou com o passar dos anos.
Ao ler a Bíblia, constata-se que desde os primórdios do Antigo Testamento a pregação já ocupa a mais elevada posição de relevância. Esta relevância percorre toda a história da Igreja Cristã, marcando-a com a poderosa revelação de Deus através da Sua Palavra. Portanto, ao iniciar este capítulo, desejamos destacar tal relevância. Vale insistir que, a pregação para ser relevante precisa ter sua base nas Escrituras; o conteúdo da mensagem provém das Escrituras.

O que é pregação
Para melhor compreensão deste tema, é necessário definir os termos “Palavra” e “Pregação”. Assim, entender-se-á melhor o significado de pregação.

Significado teológico de Palavra
Não podemos iniciar uma pesquisa sobre a pregação, sem antes entender teologicamente, e com profundidade do termo “palavra”. J. Ramseyer afirme que,

O lugar ocupado pela “palavra” nas relações entre Deus e o mundo, entre Deus e o homem e entre os próprios homens, é tão importante que cobre todo o campo da revelação. A palavra não toca apenas a tal ou qual aspecto da obra de Deus, ela não exprime apenas seus elementos intelectualmente comunicáveis ou perceptíveis, mas ela é o modo essencial pelo qual Deus intervém no mundo: por sua Palavra Ele criou os céus e a terra (Gn 1), em sua Palavra Ele se revela nos homens (Jo 1), finalmente , pela proclamação de Sua Palavra se cumpre e se desenrola a história da Igreja (At 4.29,31). Não é preciso esperar, fora da Palavra, outro modo de revelação, mais intuito, por exemplo, mais imediatamente sensível. O próprio Espírito Santo nada criou de “novo”. Ele apenas iluminou a Palavra e tornou possível sua audição e proclamação (Jo 14.26).
[...] Toda a história da salvação, testemunha pelas Escrituras, é a Palavra dirigida por Deus ao mundo.(2)

No Antigo Testamento, a Palavra de Deus é usada para designar a comunicação divina provinda da parte de Deus aos homens, na forma de mandamento, profecia, advertência ou encorajamento. A Palavra de Deus reflete a personalidade divina, investida de autoridade, e deve ser ouvida e obedecida.
A Palavra de Deus é permanente(3), e uma vez proferida não pode deixar de ser cumprida(4).
No Novo Testamento, “palavra” é usada geralmente para designar a pregação da mensagem do evangelho. Para a igreja primitiva, a Palavra era uma mensagem revelada da parte de Deus em Cristo, que deveria ser pregada, ministrada e obedecida. Era a palavra da vida(5), da verdade(6), da salvação(7), da reconciliação(8) e da cruz(9).
No entanto, se deve entender por “palavra” algo muito mais elevado que o “logos” da filosofia grega. Allmen afirma que, enquanto para os filósofos alexandrinos o “logos” evocava uma razão, uma ordem não temporal na sucessão eterna das coisas, as Escrituras estabelecem a Palavra a um fenômeno histórico sem igual. A palavra não reconduz a uma realidade. Ela é a própria realidade. Ela é o verbo que se encarnou. Para Allmen,

O mérito da teologia reformada é haver redescoberto a importância incontestavelmente central da “Palavra de Deus”. Mas o risco que esta teologia corre é ser vítima de uma confusão de termos e assemelhar muito rapidamente o que ordinariamente se entende por “palavra” com o conceito bíblico muito mais amplo de Palavra. A pregação da Palavra não depende apenas do discurso, por mais dedicado que ele seja a transmitir fielmente o “pensamento” bíblico. A revelação antes de tudo é um fato e este fato inteiro é a Palavra. A Palavra de Deus é mais do que discurso de Deus, é ato de Deus, pois Deus age por Sua Palavra e fala por Suas ações.(10)

Deste modo, afirmar Anglada,

O conceito reformado de palavra de Deus é mais amplo do que aquele geralmente compreendido pela expressão. Ele inclui a palavra escrita: a Bíblia; a palavra encarnada: Cristo; a palavra simbolizada ou representada: os sacramentos do batismo e da ceia; e a palavra proclamada: a pregação. Na teologia reformada, portanto, a pregação da Palavra de Deus é palavra de Deus.(11)

Significado teológico de Pregação
A pregação a algo essencial para o povo de Deus; sem ela o povo de Deus perecerá. Tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento, encontra-se sua relevância. Segundo J. S. Baird,

[...] Nos dois testamentos, as palavras usadas para denotar a pregação possuem o elemento essencial de proclamar ou anunciar. O pregador é aquele que proclama a mensagem que foi recebida de Deus. Desse modo, numa das preleções na universidade de Yale sobre pregação, certo professor disse: “Todo pregador deve receber a sua comunicação diretamente da parte de Deus, e o propósito constante de sua vida deve ser recebê-la de modo inadulterado e entregá-la sem adição ou subtração”. Bonhoeffer refere-se a isso quando diz: “Ele coloca a Sua Palavra na nossa boca. Ele deseja que ela seja falada através de nós. Se impedirmos a Sua Palavra, o sangue do irmão que está em pecado estará sobre nós. Se cumprimos a Sua Palavra, Deus salvará o nosso irmão através de nós”.
Os primórdios da pregação encontram-se no AT. Ali, conforme alusão no NT, “Também profetizou Enoque, o sétimo depois de Adão” (Jd 14); e Noé é chamado “pregador de justiça” (2 Pe 2.5). As bênçãos de Isaque e de Jacó são exemplos do discurso formal, religioso, num estilo poético, o livro de Deuteronômio é uma série de sermões que repetem, expandem e reforçam boa parte da legislação de Moisés.
Desde os tempos de Samuel até os de Jeremias, aconteceu o grande período profético da história de Israel. Dentro desse período surgiram Samuel, Nata, Gade, Azarias, Elias, Eliseu, Joel, Miquéias, Micaías, Isaías, Jeremias, e outros. Esses “pregadores” vinham ao povo e aos reis com suas mensagens da parte de Deus. Suas mensagens freqüentemente começavam com a frase: “Assim diz o SENHOR”. Imploravam, advertiam, repreendiam, encorajavam, falavam de julgamento; inspiravam com promessas fulgurosas da glória do porvir. Os relances que possuíamos destes profetas revelam a grandeza do seu caráter, a força da sua influência e o valor permanente das suas mensagens.(12)

Portanto, pode-se entender por pregação como a exposição da Palavra de Deus, com o objetivo de guiar os homens ao conhecimento de Deus. Para o Dicionário Crítico de Teologia,

No sentido amplo, a tradição cristã entende por pregação toda atividade que visa, sob formas variadas, anunciar, proclamar a boa nova, o Evangelho. Pregação é então sinônimo de proclamação. [...] No sentido restrito, o termo pregação designa o discurso, reservado habitualmente aos ministros ordenados da Igreja, que propõe, no quadro do culto, uma interpretação atualizadora de uma passagem da Bíblia (pode-se então falar também de sermão, de predica ou de homilia). Na medida em que esta pregação faz jorrar para hoje a palavra de Deus que habita a Escritura, ela mesma é a Palavra de Deus.(13)

John Knox, escrevendo sobre a base da pregação, foi enfático, ao declarar:

A mensagem do Senhor precisa provir não de acontecimentos correntes, ou literatura em voga, ou de tendências prevalecentes de um tipo ou de outro, não de filósofos, políticos, poetas e nem mesmo, em último recurso, da própria experiência ou reflexão do pregador, mas sim das Escrituras.(14)

Assim, para ser relevante, a pregação tem de ser bíblica. “Assim diz o Senhor” é basilar a toda pregação. Charles Haddon Spurgeon afirma que o ministro com sua Bíblia é como Davi com sua pedra e funda, plenamente equipado para pelejar.
É por isso que as melhores definições sobre a pregação apontam para o valor da centralidade da Bíblia na prédica e realçam o lugar da Palavra de Deus. John Stott afirma que pregação “é falar de Deus que torna necessária a nossa fala. Devemos transmitir aquilo que ele tem falado. Daí a obrigação suprema de pregar”.(15) Para Phillips Brooks, “a pregação é a comunicação da verdade através da personalidade”.(16) Para o Bispo Manning a pregação é “a manifestação da Palavra Encarnada na palavra escrita, através da palavra falada”.(17) Martyn Lloyd-Jones, por exemplo, afirma que a pregação “é teologia em chamas. [...] Pregação é quando a teologia extravasa de um homem que está em chamas”.(18) Charles Koller assevera que, “pregação é o processo único pelo qual Deus, mediante seu mensageiro escolhido, se introduz na família humana e coloca pessoas perante si, face a face”.(19) John Piper diz que “pregar é anunciar as boas novas através de um mensageiro mandado por Deus [...]. O alvo da pregação é a glória de Deus refletida na submissão prazerosa de sua criação”.(20)
***
(1)LLOYD-JONES, Martin. Pregação e pregadores. 6ª Ed. São Paulo: FIEL, 2003. p. 7.
(2)ALLMEN, J. J. Y. Vocabulário Bíblico. 2ª Ed. Trad. de D. G. V. D. Santos. São Paulo: ASTE, 1972. p. 309.
(3)Cf. Is 40.8
(4)Cf. Is 55.11
(5)Cf. Fp 2.16
(6)Cf. Ef. 1.13
(7)Cf. At. 13.26
(8)Cf. 2 Co 5.19
(9)Cf. 1 Co 1.18
(10)ALLMEN, J. J. Y. Vocabulário Bíblico, p. 310.
(11)ANGLADA, Paulo. Introdução à pregação reformada: uma investigação histórica sobre o modelo bíblico-reformado de pregação. Ananindeua-PA: Knox, 2005. p. 60.
(12)ELWELL, Walter A. (Ed). Enciclopédia histórico-teológica da igreja cristã. Vol. III. Trad. de Gosdon Chown. São Paulo: Vida Nova, 1990. p. 172.
(13)DICIONÁRIO CRÍTICO DE TEOLOGIA. São Paulo: Paulinas/Loyola, 2004. p. 1424.
(14)KNOX, John. A integridade da pregação. Trad. de Flávia Brazil Esteves São Paulo: ASTE, 1964. p. 11.
(15)STOTT, John. Eu creio na pregação. Trad. de Gordon Chown. São Paulo: Vida, 2003. p. 16.
(16)ELWELL, Walter A. (Ed). Enciclopédia histórico-teológica da igreja cristã. Vol. III, p. 171.
(17)ELWELL, Walter A. (Ed). Enciclopédia histórico-teológica da igreja cristã. Vol. III, p. 171.
(18)LLOYD-JONES, Martin. Pregação e pregadores, pp. 70-71.
(19)KOLLER, Charles W. Pregação expositiva sem anotações. São Paulo: Mundo Cristão, 1984. p. 9.
(20)PIPER, John. A supremacia de Deus na pregação. Trad. de Augustus Nicodemos. São Paulo: Shedd Publicações, 2003. p. 27.

Ricardo Luiz de Moraes

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11 de set. de 2009

O Ministério Pastoral na Atualidade

“E vos darei pastores segundo o meu coração, que vos apascentem com ciência e com inteligência”. Jeremias 3.15
Estamos vivendo na atualidade uma grande crise. Infelizmente, está crise não se limita a aqueles, que buscam nos corredores do poder, enriquecer-se em detrimento dos outros. Está crise não se limita a aqueles que, deveriam ser modelos, paladinos da ética, representantes do povo, que sofre com as desventuras da vida cotidiana. Está crise avassaladora atingiu nossa sociedade em sua totalidade e alcançou a igreja. Está crise chegou sem bater, entrou pelos umbrais de nossas igrejas e subiu aos púlpitos. Alguns percebem está crise, pela verborragia de homens despreparados, descompromissados com Deus e com a Sua Palavra. Pois eles tentam no seu alvoroço, aos berros e encenações, mostrarem-se melhores do que os demais... Muito mais santos. Outros, mais pretensiosos, celebram as novidades com rodopios, alaridos, assovios e aplausos, extasiados com a oportunidade de uma mensagem utilitária, carregada de novas e bizarras experiências, projetando uma enganosa esperança nos bonachões que vivem em busca de algo mais - do que a graça de Deus - para sua vida.
O resultado desta crise é que muitos pastores passam a fazer do púlpito: um balcão de negócios, uma prateleira do mercado da fé, uma praça de barganhas, onde as bênçãos e os milagres de Deus são mais importantes do que o próprio Deus.
Precisamos mudar este enganoso paradigma. Carecemos de pastores que busquem a Deus de todo o coração e sem medo de humanizar-se. Porque quanto mais humanos nos tornarmos, traduziremos a perfeita imagem do Filho de Deus, que aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens (Fl 2.7).
Precisamos de pastores que preguem o evangelho da Cruz, o evangelho puro e simples, fundamentado somente na obra redentora de Cristo. Precisamos pregar o evangelho da graça de Deus, que nada requer do homem, além do seu total arrependimento do pecado e o desejo ardente de amar a Deus de todo o coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento, e, ao seu próximo como a ti mesmo (Mt 22. 37-39).
Vejamos algumas causas desta crise que campeia o ministério pastoral.
1 – Pastores não convertidos no ministério.
Charles H. Spurgeon disse que não há um maior instrumento do diabo dentro da igreja do que um ministro ímpio e impuro. Richard Baxter, disse “que os pecados do líder são os mestres do pecado”. Quando o líder despreza a Palavra de Deus, torna-se instrumento de maldição e morte e não de bênçãos e vida. Os pecados do líder são mais graves, mais hipócritas e mais desastrosos: mais graves, porque pecam contra um maior conhecimento; mais hipócritas, porque combatem aquilo que praticam; mais desastrosos, porque testemunham contra aquilo que dizem acreditar.
2 – Pastores confusos teologicamente no ministério.
Existem muitos pastores que não crêem na Bíblia. Pastores que aderiram ao liberalismo teológico, que tenta esvaziar a Escritura, desacreditando na sua veracidade, negando, assim, sua inerrância. Outros, abraçaram o sincretismo religioso que esvazia a Escritura acrescentando a ela o experiencialismo, negando, assim, sua suficiência.
O sincretismo religioso, esvazia a autoridade da Escritura, pois embora creia na sua suficiência, não a coloca em prática. Na verdade, aqueles que são adeptos do sincretismo religioso, são tão mortíferos para a verdadeira ortodoxia quanto os liberais, pois eles falam que crêem na Palavra de Deus, mas buscam experiências forâneas a Escritura para conduzi-lo.
Precisamos lidar com a Bíblia como a Palavra de Deus, autorizada, perfeita e eficaz. Quando o ministro possui uma grande estima pelas Escrituras exala aos seus ouvintes a idéia de que a mensagem nela contida é totalmente digna de toda confiança e aceitação, e, de que suas promessas se cumprirão.
3 – Pastores que não vivem o que pregam.
A vida do ministro é a vida da sua liderança. Sem exemplo, o líder deixa brechas em sua armadura e facilmente torna-se alvo das setas envenenadas dos inimigos. Uma das áreas mais importantes no ministério pastoral é a vida do pregador. John Stott afirmar que “a prática da pregação jamais pode ser divorciada da pessoa do pregador”. Al Martin diz que “a pregação poderosa está enraizada no solo da vida do pregador”. Uma vida ungida produz um ministério ungido.
Nessa perda de referencias, muitos pastores têm caído nas arapucas do sexo, do poder e do dinheiro. Muitos líderes que estão nos holofotes, têm naufragado no casamento, negociado a Palavra de Deus para subir ao pódio do sucesso. Há pastores que sobem aos púlpitos para transmitir ao povo a Palavra de Deus, para logo depois, descerem ao mais baixo degrau da indiferença em sua própria casa.
4 – Pastores que buscam o crescimento de suas igrejas a qualquer custo.
O crescimento da igreja é um dos temas mais discutidos na atualidade. Todo pastor anseia ver sua igreja crescer. A igreja sadia deve crescer, precisa crescer. Hernandes Dias Lopes afirma que na busca do crescimento da igreja, há dois extremos perigosos que devem ser evitados. O primeiro deles é a numerolatria: É a idolatria dos números. É crescimento como um fim em si mesmo. É o crescimento a qualquer custo, a qualquer preço. Hoje vemos muita adesão e pouca conversão, muito ajuntamento e pouco arrependimento, quebrantamento. Estranhamente, vemos a pregação da fé sem o arrependimento e da salvação sem a conversão. O segundo é a numerofobia: É o medo dos números. É a desculpa infundada da qualidade sem quantidade. A qualidade gera quantidade. A igreja é um organismo vivo. Quando ela prega a Palavra com integridade e vive em santidade, Deus dá o crescimento. Não há colheita sem semeadura.
Meus amados, a classe pastoral está em crise. Quando os lideres estão em crise a igreja também está. A Igreja é um reflexo de seus líderes. Se quisermos restauração para a Igreja, precisamos buscar não as novidades, mas voltarmo-nos para as Escrituras. É o momento de orarmos para que o Senhor nos dê pastores segundo o seu coração. John Wesley dizia: “Dá-me cem homens que não amem ninguém mais do que a Deus e que não temam nada senão o pecado, e com eles eu abalarei o mundo”. Nada pode comprometer a genuína exposição das Escrituras, quando realizada por um ministro que tem como prioridade fazer a vontade de Deus e cumprir fielmente Seus eternos propósitos.
Ricardo Luiz de Moraes

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8 de set. de 2009

O Pastor como Despenseiro

Muitos dizem que o Brasil é o país do futuro. No mínimo, é um dos países que irá influenciar o futuro do mundo. Tem uma grande potencialidade de recursos e é um dos maiores países em extensão. É, também, um dos maiores em população. Um país em que Deus está fazendo uma grande obra.
O pastor é, talvez, um dos homens mais importantes neste quadro. Ao lado do evangelista, do apóstolo e do profeta (Ef 4.12), o trabalho do pastor é chave para o estabelecimento de uma Igreja sadia, obediente e reprodutiva dentro da sociedade brasileira.
Sem o pastor, todo trabalho de evangelismo e estabelecimento de novas igrejas vai durar apenas uma geração. Deus tem confiado uma grande responsabilidade ao pastor: o fortalecimento do rebanho e a edificação do corpo de Cristo, em amor, para cumprir com Seus propósitos.
Para fazer isso, o pastor fala, ministrando a Palavra de Deus ao povo de Deus. A Bíblia usa a palavra “pregação”. Várias vezes, durante a semana, o pastor é chamado a pregar, quer dizer, a falar as palavras de Deus. Portanto, as perguntas básicas de todo pastor são: “O que falarei?” e “Onde descobrirei o que hei de falar?”. A resposta a essas perguntas está relacionada com aquilo que o pastor é e não é.
O que o pastor não é
O pastor, primeiramente, não é como o profeta que recebeu a revelação original da boca de Deus. Basicamente, Deus já nos revelou tudo o que queria revelar. Tudo que nós precisamos para a vida já está na Bíblia. Quando Ele fala hoje, por meio do Seu Espírito, é para aplicar a Palavra às nossas vidas.
O pastor também não é um apóstolo, como os doze discípulos. Eles foram testemunhas oculares da ressurreição de Jesus e foram ordenados pessoalmente por Jesus Cristo a apascentar as Suas ovelhas. O pastor não tem a autoridade de uma pessoa que recebeu tudo pessoalmente das mãos de Jesus. O que ele fala é sujeito a discussão, porque ele não tem o monopólio da interpretação.
Em terceiro lugar, o pastor não é um papagaio. Ele não é uma pessoa que colhe idéias de outros e repassa-as adiante como conhecimento próprio.
Suas idéias não são achadas em qualquer lugar. Os seus sermões não são sacolas de trapos; quer dizer, idéias e pensamentos simplesmente colhidos de livros e de sermões que outros já pregaram. Não é errado usar as idéias de outras pessoas ou citar outros em nossos sermões. O problema com o papagaio é que ele não usa sua própria mente. Ele usa idéias, palavras e pensamentos de outros porque é preguiçoso.
O que o pastor é
Como, então, o pastor resolverá o seu problema básico de conseguir o que vai falar? O pastor, como Paulo, é um despenseiro dos mistérios de Deus (1Co 4.1,2). Um despenseiro é um administrador que cuida dos bens de uma outra pessoa. Os mistérios são a revelação de Deus preservada na Bíblia. Portanto, a mensagem do pastor não vem diretamente da boca de Deus, como a mensagem do profeta ou do apóstolo, nem da mente de outras pessoas, como a mensagem do papagaio, mas, da Palavra de Deus da qual ele é o despenseiro privilegiado.
A palavra despenseiro significa “o gerente da casa”. O gerente da casa está debaixo da autoridade do dono da casa, com a responsabilidade de proteger, cuidar, ministrar e prestar contas de todos os bens ao dono. O depósito que Deus nos confiou é a Bíblia e o pastor, como despenseiro, tem a responsabilidade de distribuir este depósito ao povo com fidelidade (1Co 4.2).
A motivação do pastor
O fato de sermos despenseiros, deve ser um incentivo ao nosso trabalho. Deus tem colocado a Sua confiança em nós e desejamos demonstrar que merecemos tal confiança.
É muito fácil para um pastor ficar desanimado ou abatido. Afinal, ele não lida com coisas mecânicas, mas com homens e mulheres. Nem sempre eles cooperam com as boas idéias do pastor. Muitas vezes, só reparam nos erros!
O fato de que Deus achou por bem nos confiar tesouros tão valiosos, nos deve dar confiança no que fazemos. Não é possível ficar desanimado quando consideramos que o Deus do Universo nos confiou algo tão essencial como a ministração dos Seus mistérios ao Seu povo.
Paulo diz que a pregação é algo que ele não pode deixar de fazer (1Co 9.16,17). É obrigado a trabalhar! Deus está dependendo do pastor, Seu despenseiro. Sua família também está esperando que o despenseiro a alimente. Só assim a casa terá sucesso. Só assim será bem administrada.
A mensagem fiel do pastor
A mensagem do pastor depende do fato de que ele é um despenseiro: sua mensagem não lhe pertence, mas pertence ao Senhor. Ele não a inventou. É algo que ele recebeu. Ele tem a responsabilidade de ser fiel à mensagem que lhe foi confiada através da Palavra de Deus. Como ser fiel à mensagem? Há três coisas que podemos fazer: guardar o bom depósito, ministrar o bom depósito e disciplinar-nos.
Guardar o bom depósito
Nas cartas a Timóteo, Paulo chama a sua atenção ao fato de que lhe foi confiado um depósito (1Tm 1.11; 2Tm 1.12) e exorta-o a guardar fielmente este depósito (1Tm 6.20; 2Tm 1.13,14).
Ele deseja que Timóteo não deixe a mensagem ser modificada por causa da oposição de palavras vãs, baseadas numa ciência falsa, mas que fique fiel ao modelo de palavras sãs que recebeu de Paulo.
Nós também recebemos, de Paulo e da Bíblia, as mesmas sãs palavras. Só podemos guardá-las bem, garantindo a comunicação pura e verdadeira, por meio do Espírito Santo que habita em nós (2Tm 1.14).
Paulo é mais específico sobre como guardar este depósito. Em 2Co 2.17, ele afirma que não faz como muitos que falsificam a Palavra de Deus. Ao contrário, Paulo usava a Palavra de Deus com seriedade, para aquilo que Deus a tinha destinado. Em 4.2, no grego, ele diz que “não diluímos a Palavra de Deus”.
A palavra “diluir” era usada no comércio de vinho. Alguns colocavam água no vinho para lucrar mais. A idéia é de que alguns “vendiam” a Palavra de Deus, visando lucro. Adulteravam a Palavra de Deus para fazê-la mais aceitável. Esse não é o nosso alvo.
Não apresentamos a Palavra de Deus só para que os nossos ouvintes gostem. Porém, procuramos manifestar a verdade que nos foi confiada para que a tornemos conhecida. Somos despenseiros e é isso que nosso Mestre nos incumbiu a fazer.
Ministrar o bom depósito
Esta é a pregação: manifestar a verdade tal como está escrita na Bíblia. Portanto, cada sermão que pregamos deve ser uma exposição da verdade de Deus. Paulo recebeu a comissão de dar pleno cumprimento à Palavra de Deus (Cl 1.25). Aos presbíteros em Éfeso, ele disse: “jamais deixei de anunciar todo o desígnio de Deus!” (At 20.27).
Todos temos nossas doutrinas favoritas ou trechos prediletos para pregar. Mas um despenseiro fiel não serve somente arroz em cada refeição. Ele serve a refeição completa e variada visando a boa alimentação de todos, A casa de Deus precisa de despenseiros que ministram sistematicamente toda a Palavra de Deus, tanto as passagens bem conhecidas como as pouco conhecidas. Como fazer isto?
Precisamos nos avaliar: de que verdades estamos nos esquivando? Em quais estamos nos concentrando demais? Um método que nos mantém fiel à Palavra toda é seguir livros inteiros da Bíblia, capítulo por capítulo, versículo por versículo.
Nossa exposição tem que ser simples e direta. Devemos demonstrar claramente o caminho que o povo deve seguir. Em 2 Tm 2.15, Paulo exorta Timóteo a estudar a fim de manejar bem a Palavra. Manejar pode ser traduzido por “cortar reto”, como em Pv 3.6: “Ele endireitará as tuas varedas”. Nossa exposição da Bíblia tem que ser simples, direta e fácil de entender. O sermão deve preparar para o povo uma estrada reta, fácil de seguir.
A disciplina do pastor
O bom despenseiro familiariza-se com todo o conteúdo do depósito. O depósito que está guardado nas Escrituras é tão extenso que uma longa vida de estudos não conseguiria esvaziar suas riquezas e variedades. A pregação expositiva não é fácil. Talvez por ser tão árdua é que ela é encontrada no ministério de tão poucos. Os únicos que estão preparados para realizar este ministério são os que estão preparados para seguir o exemplo dos apóstolos em Atos 6.4.
Eles acharam desperdício abandonar a pregação da Palavra para servir às mesas. Antes, “nos consagraremos ao ministério da Palavra”. Esses eram despenseiros fiéis.
A pregação sistemática é impossível sem o estudo sistemático. Não é suficiente deslizar por cima de uns poucos versículos cada dia. Também não basta estudar um trecho quando vamos pregar sobre ele. Diariamente precisamos estar nos aprofundando na Palavra de Deus. Nós mesmos devemos estar imersos nela. Precisamos conhecer os grandes temas da Bíblia e aplicar os resultados do nosso estudo à nossa vida.
Quando nos toca pregar sobre algo específico, então devemos nos aplicar ao estudo disciplinado, usando todos os recursos à nossa disposição.
Queremos chegar ao entendimento pleno do significado da passagem e da aplicação dela à vida do povo. Isso é trabalho árduo. Para ser fiel (1Co 4.2), o despenseiro vai procurar conhecer bem o depósito que lhe foi confiado a favor do povo de Deus.
John Stott
Adaptado de "Preacher's Portrait" de John Stott, por Douglas Spurlock.

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6 de set. de 2009

Você está pregando o Evangelho?

É verdade que, onde abundou o pecado, superabundou a graça; então, “permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante?” A genuína pregação do evangelho da salvação somente pela graça sempre leva à possibilidade desta censura ser lançada contra a graça. Não existe melhor teste para sabermos se um homem está realmente pregando o evangelho do Novo Testamento: algumas pessoas o entendem mal e o interpretam de maneira errada, de modo que chegam à seguinte conclusão: visto que fomos salvos apenas pela graça, realmente não importa tudo que fazemos, podemos continuar pecando como queremos, pois isto redundará em mais glória da graça de Deus. Este é um excelente teste para avaliarmos a pregação do evangelho. Se minha pregação deixa de expor o evangelho ao ponto de gerar este mal-entendido, realmente não estou proclamando o evangelho. Pretendo explicar o que estou afirmando. Se um homem anuncia a justificação por meio de obras, jamais teremos aquele entendimento errado. Se ele diz: “Você deseja ir ao céu? Então precisa parar de cometer pecados, viver um vida repleta de boas obras e observar certas coisas até à sua morte, deste modo será um cristão e irá ao céu, quando morrer”. O pregador da mensagem acima não será acusado de ter dito: “Continuemos a pecar, para que a graça seja abundante”. Mas todo fiel pregador que anuncia o evangelho tem sido acusado de anunciar uma mensagem que estimula a pecar! Todos eles têm sido acusados de “antinomianismo” (estar contra a lei). Eu poderia falar a todos os ministros do evangelho: “SE A SUA PREGAÇÃO DO EVANGELHO NÃO TEM SIDO ENTENDIDA DAQUELA MANEIRA ERRADA, VOCÊ DEVE EXAMINAR SEUS SERMÕES NOVAMENTE”; é melhor certificar-se de que está realmente proclamando a salvação anunciada no Novo Testamento aos ímpios, pecadores, mortos em seus delitos e pecados, inimigos de Deus. Existe um certo elemento de perigo na apresentação da doutrina da salvação.
D. M. Lloyd-Jones
Nota: Extraído da revista "Fé para Hoje" - Editora FIEL.

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O Poder da Palavra

Em face das dúvidas relativas à eficiência pessoal numa época que questiona a validade da pregação precisamos de uma lembrança do desígnio de Deus para a transformação espiritual do ser humano. No final das contas, a pregação cumpre seus objetivos espirituais não por causa das habilidades do pregador, mas por causa do poder da Escritura proclamada. Os pregadores exercerão seu ministério com grande zelo, confiança e liberdade quando compreenderem que Deus retirou de suas costas as artimanhas da manipulação espiritual. Deus não está confiando em nossa destreza para a realização dos seus propósitos. Por certo, Deus pode usar a eloqüência e deseja esforços adequados à importância do assunto em questão, porém sua própria Palavra cumpre o programa de salvação e santificação. Os esforços pessoais dos maiores pregadores são ainda demasiado fracos e manchados pelo pecado para serem responsáveis pelo destino eterno das pessoas. Por essa razão Deus infunde sua Palavra com poder espiritual. A eficácia da mensagem, mais que qualquer virtude do mensageiro, transforma corações.
O PODER DE DEUS INERENTE À PALAVRA
Não podemos saber precisamente como a verdade de Deus transforma vidas, mas devemos discernir a dinâmica que nos dá esperança em nossa própria pregação. A Bíblia torna isto claro – que a Palavra não é somente poderosa, ela é inigualável. A palavra de Deus:

Cria - “Disse Deus: Haja luz; e houve luz” (Gn 1.3). “Pois ele falou, e tudo se fez; ele ordenou e tudo passou a existir” (Sl 33.9).

Controla - “Ele envia as suas ordens à terra, e sua palavra corre velozmente; dá a neve como lã e espalha a geada como cinza. Ele arroja o seu gelo em migalhas...Manda sua palavra e o derrete (Sl 147.15-18).
Persuade: “... mas aquele em quem está a minha palavra fale a minha palavra com verdade... diz o Senhor. Não é a minha palavra fogo, diz o Senhor, e martelo que esmiúça a penha?” (Jr 23.28, 29).
Cumpre seus propósitos: “Porque, assim como descem a chuva e a neve dos céus e para lá não tornam, sem que reguem a terra... assim será a palavra que sair da minha boca; não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a designei” (Is 55.10, 11).
Anula os motivos humanos: Na prisão, o apóstolo Paulo se regozijava, porque quando outros pregavam a Palavra, “quer por pretexto, quer por verdade”, a obra de Deus seguia adiante (Fp 1.18).
A descrição da Escritura acerca da sua potência desafia-nos a lembrar sempre que a Palavra pregada, antes mesmo da pregação, cumpre os propósitos do céu. Pregação que é fiel à Escritura converte, convence e amolda o espírito de homens e mulheres, pois ela apresenta o instrumento da compulsão divina, e não que pregadores tenham em si mesmos qualquer poder transformador.

O PODER DA PALAVRA MANIFESTADO EM CRISTO

Deus manifesta plenamente o poder dinâmico da Palavra do Novo Testamento ao identificar seu Filho como o divino Logos, ou Palavra (Jo 1.1). Por meio da identificação do seu Filho como sua Palavra, Deus revela que a mensagem do Filho e a pessoa do Filho são inseparáveis. A palavra o incorpora. Isso não quer dizer que as letras e o papel da Bíblia são divinos, mas que as verdades que a Escritura sustenta são veículos de Deus, de sua própria atividade espiritual.
A Palavra de Deus é poderosa porque ele está presente nela e opera por meio dela. Por meio de Jesus “todas as coisas foram feitas” (Jo 1.3) e ele continua “sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder” (Hb 1.3). A Palavra emprega sua palavra para levar a cabo todos os seus desígnios. O poder redentor de Cristo e o poder da sua Palavra unem-se ao Novo Testamento com Logos (a encarnação de Deus) e logos (a mensagem acerca de Deus), tornando-se termos tão reflexivos como que para formar uma identidade conceptual. Da mesma forma como a obra da criação procede da Palavra que Deus articula, assim também a obra da nova criação (i.é, redenção) nos vem pela Palavra viva de Deus. Tiago afirma: “ele [i.é, o Pai] nos gerou pela palavra da verdade ...” (Tg 1.18). A expressão palavra da verdade se aplica como um trocadilho que reflete a mensagem sobre a salvação e o único que opera o novo nascimento. O mesmo jogo de palavras é empregado por Pedro: “pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus” (1Pe 1.23). Nessas passagens, a mensagem acerca de Jesus e o próprio Cristo se harmonizam. Ambos são a “viva e eterna Palavra de Deus”, pela qual nascemos de novo.
Assim, não é algo meramente prosaico insistir que o pregador deve servir ao texto, pois se a Palavra é a presença mediadora de Cristo, o serviço é devido. Paulo instrui corretamente o jovem pastor Timóteo a ser um obreiro “que maneja bem a palavra da verdade” (2Tm 2.15), pois a Palavra de Deus é “viva e eficaz” (Hb 4.12a). A verdade da Escritura não é objeto passivo para nossa investigação e apresentação. A Palavra nos examina. “[Ela] é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração” (Hb 4.12c). Cristo permanece ativo em sua Palavra, levando a efeito tarefas divinas que o apresentador da Palavra não tem o direito ou a capacidade pessoal de assumir.
Essas perspectivas sobre a Palavra de Deus culminam no ministério do apóstolo Paulo. O estudioso missionário que não se tornou conhecido pela habilidade no púlpito, no entanto, escreveu: “Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16). Como os estudantes do grego elementar logo aprendem, a palavra “poder” nesse versículo é dunamis, da qual nos vem o termo dinamite em português. A força do evangelho transcende o poder do pregador. Paulo, em suas habilidosas comunicações, prega sem envergonhar-se, pois a Palavra que ele anuncia quebra a dureza do coração humano de tal forma que nenhum progresso técnico pode competir com ela.
De certo modo, o processo como um todo parece ridículo. Pensar que o destino eterno sofrerá mudança só por que anunciamos conceitos de um texto antigo, desafia o bom senso. Quando Paulo elogia a loucura da pregação – não pregação louca – ele reconhece a aparente insensatez de tentar transformar atitudes, estilos de vida, perspectivas filosóficas e compromissos de fé, com meras palavras (veja 1Co 1.21). No entanto, a pregação persiste e o evangelho se expande porque Deus confere aos débeis esforços humanos a força de sua própria Palavra.
A cada ano repito aos novos estudantes do seminário sobre uma ocasião em que a realidade do poder da Palavra atingiu-me com força excepcional. A obra do Senhor dominou-me quando entrei na classe de novos membros da igreja. Sentadas juntas na primeira fila estavam três jovens mulheres – todas primas. Embora estas tivessem se comprometido a ir, o fato de estarem ali me surpreendeu.
No ano anterior, cada uma delas, com sérios problemas, havia buscado a nossa igreja à procura de socorro. Tomei conhecimento da situação da primeira depois que, frustrada, deixou o marido por causa do alcoolismo dele. Era ele um membro ocasional da igreja e não escondia seu desinteresse por “religião”, mas com o abandono da esposa ele buscou nossa ajuda. Afirmou que faria qualquer coisa para tê-la de volta. Vieram juntos para o aconselhamento. Ele tratou da embriaguês. Reconciliaram-se, e agora ela desejava fazer parte da nossa família da fé.
A segunda prima tinha também abandonado o casamento antes que viesse pedir auxílio por sugestão da primeira. Tinha sido vítima de abusos do marido, e procurou consolo na companhia de outro homem. Embora não tivéssemos alcançado nenhum desses dois homens, nosso ministério voltado para essa mulher aqueceu o seu coração diante de Deus. Mesmo depois de o marido ter-se juntado com outra mulher, ela deixou seu amante, submetendo sua vida à vontade de Deus.
A última das primas era também casada, mas trabalhava como vendedora viajante e vivia com vários homens, como se cada um deles fosse seu marido. Um acidente que feriu seu sobrinho levou nossa igreja para dentro de sua vida. Tendo testemunhado o cuidado dos crentes pela criança e por ela (a despeito de sua hostilidade inicial para conosco), descobriu um amor que seus envolvimentos sexuais
não poderiam fornecer. Agora ela também vinha para ser parte da família de Deus.
A presença dessas três primas na condição de membros de uma classe da Igreja era um milagre. Quão tolo seria pensar que meras palavras que eu tinha dito – algumas consoantes e vogais saídas da boca por uma pequena explosão de ar – poderiam ser responsáveis pela decisão que elas haviam tomado. Nenhuma soma de persuasão humana poderia transformá-las do egoísmo da busca do prazer ou o estilo de vida autodestrutivo, para um comprometimento eterno com Deus. Corações antes hostis à sua Palavra, agora sentiam necessidade de comunhão com ele.
Deus havia arrancado três almas de um redemoinho infernal de confusão familiar, traição conjugal e pecado pessoal. No entanto, por mais improváveis que esses acontecimentos pareçam ser, eles são prontamente explicados. O Senhor empregou sua verdade para mudar o coração delas. Nos termos da Escritura: “deixando os ídolos, vos convertestes a Deus, para servirdes o Deus vivo e verdadeiro, e aguardardes dos céus o Seu Filho”, não devido a alguma habilidade do pregador, mas por causa do poder da Palavra (1Ts 1.9,10).
Quando os pregadores percebem o poder que a Palavra possui, a confiança em seu chamado cresce, da mesma forma como o orgulho em seu desempenho murcha. Não precisamos temer nossa ineficácia quando falamos das verdades que Deus revestiu de poder para a realização dos seus propósitos. Ao mesmo tempo, trabalhar como se nossos talentos fossem os responsáveis pela transformação espiritual, torna-nos semelhantes a um mensageiro que reivindica mérito por ter posto fim à guerra por haver ele entregue a declaração escrita de paz. O mensageiro tem uma nobre tarefa a realizar, mas porá em risco sua missão e depreciará o verdadeiro vitorioso se atribuir a si façanhas pessoais. Mérito, honra e glória com relação aos efeitos da pregação pertencem apenas a Cristo, pois somente a Palavra produz renovação espiritual.

O PODER DA PALAVRA APLICADO À PREGAÇÃO

A Pregação Expositiva Apresenta o Poder da Palavra
O fato de que o poder para a transformação espiritual baseia-se na Palavra de Deus, argumenta em defesa da pregação expositiva. A pregação expositiva tenta apresentar e aplicar as verdades de uma passagem bíblica específica. Outros tipos de pregação que proclamam a verdade bíblica são por certo válidos e valiosos, mas para o pregador principiante e como um sistema de pregação congregacional regular, nenhum outro tipo é mais importante.
A exposição bíblica liga o pregador e as pessoas à única fonte de transformação espiritual verdadeira. Considerando que os corações são transformados quando as pessoas deparam com a Palavra de Deus, os pregadores expositivos ficam comprometidos a dizer o que Deus diz. Não estamos interessados em propagar nossas opiniões, filosofias alheias ou reflexões especulativas. O interesse do pregador expositivo deve ser a verdade de Deus proclamada de tal maneira que as pessoas possam ver que os conceitos emanam da Escritura e aplicam-se à vida pessoal de cada um. Tal pregação põe as pessoas em contato imediato com o poder da Palavra.

A Pregação Expositiva Apresenta a Autoridade da Palavra
A pregação, em sua essência, fala do eterno problema humano com relação à autoridade e ao sentido. Embora vivamos em época hostil à autoridade, a luta diária por sentido, segurança e aceitação, leva cada pessoa a perguntar: “Quem tem o direito de me dizer o que fazer?” Essa pergunta tipicamente colocada como um desafio é, de fato, um apelo por socorro. Sem uma autoridade suprema em defesa da verdade, toda luta humana não tem valor fundamental, e a própria vida torna-se fútil. Tendências modernas de pregação que negam a autoridade da Palavra em nome da sofisticação intelectual, conduzem a um subjetivismo desesperador em que as pessoas fazem o que é direito a seus próprios olhos – situação cuja futilidade a Escritura já anunciou claramente (Jz 21.21).
A resposta ao relativismo radical de nossa cultura com as incertezas que o acompanham é a reivindicação bíblica de autoridade. Paulo elogia os crentes tessalonicenses porque eles aceitaram sua mensagem “...não como palavra de homens, e sim como, em verdade é, a Palavra de Deus, a qual, com efeito, está operando eficazmente em vós, os que credes” (1Ts 2.13). A afirmação da Escritura e a premissa da pregação expositiva é que Deus falou. Nossa tarefa é transmitir o que ele já confiou à Escritura. Tais esforços não se constituem em cega adesão a dogmas fundamentalistas, mas um compromisso ao que tanto a fé como a razão confirmam ser a única base de esperança humana.
Sem a autoridade da Palavra, a pregação torna-se uma infindável busca de assuntos, terapias e técnicas que granjearão aplausos, provocam aceitação, desenvolvam uma causa ou aliviem preocupações. A razão humana, as agendas sociais, o consenso popular e as convicções morais pessoais, transformam-se em recursos da pregação que carecem da “convicção histórica de que o que a Escritura diz, Deus diz”.7 As opiniões e emoções que formulam o conteúdo da pregação destituída da autoridade bíblica são as mesmas forças que podem negar a validade desses em cultura diferente, em geração subseqüente ou num coração rebelde.
Quando pregadores tratam a Bíblia como a própria Palavra de Deus, as questões acerca das coisas que temos o direito de dizer desaparecem. Deus pode dizer ao seu povo o que eles devem fazer e no que devem crer, e ele o faz. A Escritura constrange os pregadores a se certificarem de que as outras pessoas entendam o que Deus diz. Não temos autoridade bíblica para dizer nada além disso. É certo que as nossas expressões são culturalmente condicionadas, mas a transcendência da sua verdade e os privilégios que a nossa natureza desfruta por trazer a imagem divina tornam-nos possível receber e transmitir sua Palavra.
Apenas pregadores comprometidos em proclamar o que Deus diz têm o imprimatur da Bíblia sobre sua pregação. Desse modo, a pregação expositiva se empenha em descobrir e propagar o significado preciso da Palavra. A Escritura exerce domínio sobre o que os expositores pregam, pois eles esclarecem o que ela diz. O significado da passagem é a mensagem do sermão. O texto governa o pregador. Pregadores expositivos não esperam que outros reverenciem suas opiniões. Tais ministros aderem às verdades da Escritura e esperam que seus ouvintes tenham o mesmo cuidado.

A Pregação Expositiva Apresenta a Operação do Espírito
As expectativas dos pregadores expositivos estão, elas mesmas, baseadas nas verdades da Bíblia. Se nenhuma soma de eloqüência e oratória pode ser levada em conta com respeito à transformação espiritual, quem, unicamente, pode mudar corações? Os Reformadores responderam: “O Espírito Santo que, pela Palavra e com a Palavra, testifica em nossos corações.” A Palavra de Deus é a espada do Espírito (Ef 6.17; cf. At 10.44; Ef 1.13). O meio extraordinário, porém normal, por cujo intermédio Deus transforma vidas, é a participação conjunta de sua Palavra com o poder regenerativo e persuasivo do seu Espírito.
Quando anunciamos a Palavra, trazemos com ela a obra do Espírito Santo para produzir frutos na vida de outras pessoas. Nenhuma verdade confere maior incentivo à nossa pregação e nos dá mais motivos para esperar resultados dos nossos esforços. A obra do Espírito está inseparavelmente unida à pregação, como o calor está para a luz que a lâmpada emite. Ao apresentarmos a luz da Palavra de Deus, seu Espírito cumpre os propósitos divinos de aquecer, moldar e conformar corações à sua vontade.
O Espírito Santo usa nossas palavras, mas é o trabalho dele e não o nosso que produz efeito no íntimo oculto da vontade humana. Paulo escreveu: “Deus... resplandeceu em nosso coração para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo. Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós” (2Co 4.6, 7). A glória da pregação é que Deus realiza sua vontade por intermédio dela, mas somos sempre humilhados e ocasionalmente confortados com o conhecimento de que ele age além das nossas limitações humanas.
Essas verdades desafiam todos os pregadores a conduzirem sua tarefa com um profundo senso de dependência do Espírito de Deus. Ministério eficaz requer devotada oração pessoal. Não devemos esperar que nossas palavras façam com que outras pessoas conheçam o poder do Espírito, se não desfrutamos ainda do encontro com ele. Pregadores fiéis rogam a Deus que opere e ao mesmo tempo proclamam sua Palavra. O sucesso no púlpito pode ser a força que leva um pregador para longe de uma vida piedosa de dependência do Espírito. Elogios congregacionais em razão da excelência no púlpito podem levar à tentação de depositar demasiada confiança em talentos pessoais, habilidades adquiridas ou num método pessoal de pregação. Sucumbir a tais tentações torna-se evidente, não tanto por uma mudança de opinião religiosa, como por uma mudança na prática. A negligência em orar é indicativa de sérias deficiências no ministério, mesmo que outros sinais de sucesso não tenham diminuído. Devemos sempre lembrar que aplauso popular não é necessariamente o mesmo que eficiência espiritual.
As dimensões espirituais da pregação expositiva desautorizam muito do que você pode ser tentado a crer a respeito deste livro, isto é, se você aprende a falar muito bem, pode ser um grande pregador. Não é verdade! Por favor, não deixe que ênfases necessárias deste livro, comentários de outros, ou desejos do seu próprio coração o desencaminhem. Grandes dons não o tornam grande pregador. A excelência técnica da mensagem pode repousar nas suas habilidades, mas a eficácia espiritual da sua mensagem reside em Deus.
Fonte: Extraído do excelente livro Pregação Cristocêntrica, de Brian Chapell, publicado pela Editora Cultura Cristã.

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3 de set. de 2009

A Grande Ocupação do Pastor

Esta ocupação é descrita de duas formas: primeiro, de modo geral – pregar a Palavra; segundo, entrando em detalhes – redarguir, repreender, exortar.
1. Pregar a Palavra.
A grande obra do pastor, na qual deve depositar as forças dos seu corpo e mente, é a pregação. Por fraco, passível de menosprezo, ou louco (no mesmo sentido chamaram a Paulo de louco) que possa parecer, este é o grande instrumento que Deus tem em suas mãos e para que, por ele, pecadores sejam salvos e os santos sejam feitos aptos para a glória. Aprouve a Deus, pela loucura da pregação, salvar aos que crêem. Foi para isto que nosso bendito Senhor dedicou os poucos anos de seu próprio ministério. Ó, quanta honra deu Jesus à obra da pregação ao pregar nas sinagogas, no templo ou mesmo sobre as calmas águas do mar da Galiléia! Não fez Ele a este mundo o campo de Sua pregação? Esta foi a grande obra de Paulo e de todos os apóstolos. Por isso Ele deu este mandamento: “Ide por todo mundo e pregai o evangelho”. Ó irmãos, esta é nossa grande obra! Boa coisa é visitar os enfermos, ensinar às crianças e vestir aos que estão nus. Bom é também atender ao ministério do diaconato, escrever ou ler livros. Porém, a principal e maior missão é pregar a Palavra. ”O púlpito – como disse Jorge Herbert – é nosso gozo e trono”. É nossa torre de alerta. Dela temos de avisar ao povo. A trombeta de prata nos tem sido concedida. O inimigo nos alcançará se não pregarmos o Evangelho.
O Tema - A Palavra.
Em vão pregamos se não pregarmos a Palavra, a verdade, tal como está em Cristo Jesus.
A) Não há outro tema a nos ocupar. “Vós sois minhas testemunhas”. “Este (João Batista) veio como testemunha para que testificasse a respeito da luz” (Jo 1:7). Não podemos falar de nada, senão só do que temos visto e ouvido de Deus. Não é obra do pastor aclarar temas da sabedoria humana ou expor suas próprias idéias ou teorias, mas só falar da glória e fatos do Evangelho. Devemos falar o que está contido na Palavra de Deus.
B) Pregar a Palavra, especialmente as partes mais importantes. Se você estivesse com um moribundo e soubesse que ele tinha apenas meia hora de vida, de que lhe falaria? Explicaria alguma curiosidade da Bíblia? Falaria da exigências dos mandamentos de Deus? Não lhe falaria daquilo que é mais importante: sobre sua condição de perdido em que se acha por natureza e do seu estado de inimizade com Deus, urgindo-o a arrepender-se? Não lhe contaria a respeito do amor e da morte do Senhor Jesus Cristo? Não lhe diria do poder do Espírito Santo? São estas as coisas vitais que o homem deve receber, e sem as quais perecerá. Estes são os grandes temas da pregação. Não devemos pregar tal como fez Jesus aos discípulos de Emaús, iniciando desde Moisés e passando pelos profetas, e das coisas relativas a
Ele mesmo? “Haja muito de Cristo no vosso ministério”, disse Eliot. Rowland Hill costumava dizer: “Olhe que não tenhas nenhum sermão sem os três R.: A Ruína da queda; a Justiça (righteousness, em inglês) em Cristo; e a Regeneração pelo Espírito”. Temos de pregar a Cristo para despertar as almas, confortá-las, e santificá-las. “Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo” (Gl 6:14).
C) Pregar exatamente o que há na palavra de Deus. Quero sugerir humildemente para consideração de todos os ministros que é nossa obrigação pregar a Palavra de Deus na forma em que se acha nas suas páginas sagradas. Não é a Palavra a espada do Espírito? Não deve ser nossa grande obra tomá-la da sua bainha, limpá-la de todo mofo que a cobre e aplicar seu penetrante fio nas consciências dos homens? Certamente nossos antepassados no ministério costumavam pregar desta maneira. Brow de Haddington costumava pregar como se ele não houvesse lido outro livro senão a Bíblia. A verdade de Deus em sua desnuda simplicidade é o que o Espírito desejará honrar e bendizer grandemente. “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade”.
2. Redarguir, repreender, exortar.
A primeira obra do Espírito sobre o coração natural é redargui-lo do pecado. Mesmo que seja o Espírito de amor e a pomba seu símbolo, mesmo que seja comparado ao doce vento e à suave brisa, apesar de tudo, sua primeira obra é convencer os homens dos seus pecados. Se os pastores estão cheios do mesmo Espírito realizarão esta obra da mesma maneira. É o método que normalmente é usado por Deus: despertar aos homens e levá-los a desesperar de sua própria justiça antes de revelar-lhes a Cristo. Assim foi com o carcereiro de Filipos. Aconteceu o mesmo a Paulo que ficou cego por três dias. Todo fiel ministro deve esforçar-se por isto. Colocar o arado sobre o terreno e não semear entre cardos e espinhos. Os homens devem ser humilhados pela Lei para ver sua culpa e miséria. Se não for assim toda nossa pregação é como “desferindo golpes no ar” (I Co 9:26). Ó, irmãos! Tem sido este o nosso ministério? Cumprimos o ministério da Palavra sensível e claramente? Eu temo que a maioria de nossas congregações tenham membros seguindo um rumo equivocado, navegando a favor da corrente, estando a ponto de entrar na eternidade não convertidos e não nascidos de novo. Estes não nos agradecerão na eternidade pelo fato de termos falado só de coisas doces a seus ouvidos carnais.
Não, talvez possam pedir-nos que falemos assim, agora, mas nos amaldiçoarão com todo ódio na eternidade. Ó, por Cristo, que cada um de nós seja achado fiel na pregação.
Exortar.
A palavra original significa consolar, falar como faz o Consolador. Esta é a segunda parte da obra do Espírito Santo, guiar a alma a Cristo para falar-lhe das boas novas. Esta é a obra mais difícil, ou a parte mais difícil do ministério cristão. João Batista fez também esta obra: “Eis o Cordeiro de Deus”. Isaías disse: “Consolai-os, consolai-os”. Tal foi a ordem do nosso Senhor: “Ide e pregai o evangelho a toda criatura...”. As boas novas fazem formosos os pés dos que anunciam coisas boas (Rm 10:15). O pastor tem de pregar acerca de um todo poderoso, completo e livre Salvador divino.
É aqui que há um defeito na pregação de minha amada Escócia de hoje. Muitos pastores estão acostumados a mostrar Jesus diante do povo. Expõem de forma clara e bela o Evangelho, porém não urgem aos homens para que entrem no reino. Mas Deus diz: Exorta! (roga aos homens); persuade-os! Não somente mostre a porta estreita aberta, mas insta-os a que entrem por ela. Ó, sejamos mais misericordiosos para com as almas, para que possamos por nossas mãos sobre os homens e os guiemos com suave a doce contato ao Senhor Jesus.
Parte de uma mensagem de Robert Murray McCheyne quando pregou em uma cerimônia de ordenação de um ministro evangélico - Transcrito de Mensajes Bíblicos (The Banner of Truth Trust).
Fonte: Revista Os Puritanos.

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31 de ago. de 2009

Citações de João Calvino

"A fé não admite glorificação senão execlusivamente em Cristo. Segue-se que aqueles que exaltam excessivamente a homens, os privam de sua genuína grandeza. Pois a coisa mais importante de todas é que eles são ministros da fé, ou seja: conquistam seguidores, sim, mas não para eles mesmos, e, sim, para Cristo".
CALVINO, João. Exposição de 1 Coríntios, p.101-2.

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30 de ago. de 2009

Manual do candidato ao ministério da Palavra de Deus - IPB

Uma das atividades mais abençoadoras e críticas de um Presbitério é o exame daqueles que aspiram ao ministério da Palavra na Igreja de Cristo. Nossa Constituição impõe sérios requisitos que devem ser cumpridos passo a passo, o que demonstra a seriedade com que essa tarefa deve ser conduzida.
Entendemos que este documento vem suprir lacuna importante na sistematização das decisões já tomadas pelo SC/IPB sobre a matéria e a explicitação dos textos constituídos que norteiam o trato da vocação. Assim, este modelo de manual deve servir como guia de estudos para os candidatos, e como referência para os Concílios que quiserem adotá-lo como norma reguladora de todo o processo de formação pastoral.
Baixe aqui o Manual do Candidato

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10 de jun. de 2009

Os Desafios do Pregador - II Tm 4. 1 – 5.

INTRODUÇÃO
A Igreja Evangélica Brasileira vem crescendo e avançando ligeiramente nos últimos anos. Os mais otimistas dizem que hoje 1 em cada 6 brasileiros, professa Fé Evangélica.
Esse crescimento é bom e se torna um grande motivo de ações de graças, pois o avanço é enorme e mostra que as Igrejas estão de fato, empenhadas em um grande movimento de evangelização. Entretanto, na euforia de celebrar esse crescimento, alguns líderes parecem não perceber questões que continuam desafiando o movimento evangélico em nossos dias, e, uma delas é a crise DOUTRINÁRIA!
E o que é mais Lamentável é que esta crise não surgiu das seitas contrárias ao cristianismo, essa crise surgiu no meio do próprio povo evangélico. Uma boa parte da liderança Evangélica em nossa pátria está negociando princípios que são inegociáveis. Está comercializando e removendo as colunas da Fé Cristã, aderindo um pragmatismo oco e fantasioso, que não tem fundamento bíblico e nem compromisso com a verdade.
Outra parte vem trocando a verdade pelas estratégias de crescimento, por aquilo que “dá certo”, mas é bom que saibamos, nem sempre o que “dá certo” é a verdade. Muitos hoje, no afã de buscarem um crescimento, pregam não o que é certo, mais o que funciona. E uma área que foi afetada diretamente por esta crise, foi a Pregação da Palavra. Ela foi atingida impiedosamente, sem nenhuma consideração e temor, e por isso, tem sofrido uma diminuição, uma queda assustadora.
Vários segmentos evangélicos estão perdendo vigor nesta área que sempre foi um dos pilares da cristandade. Vem substituindo a pregação bíblica por uma abordagem genérica que, embora chame a atenção do povo em razão da natureza do seu discurso utilitário, não tem o mínimo compromisso com o conteúdo das Escrituras, e nem com a GLÓRIA DE DEUS. Outros, até tem preservado a pregação, porém, cada vez mais esvaziada da verdade, criando assim uma anomalia na Pregação, que sustenta uma visão centralizada no homem, não em Deus, que vem afugentando Cristo da temática central da pregação.
Em Sua proposta atenuada, a pregação não é mais a boa nova do Evangelho ou a boa notícia de Deus para os homens, porque o obscurantismo norteia esse movimento anômalo, e o resultado é uma Igreja doente que caminha errante e sem referencial.
Por isso, muitas Igrejas estão sofrendo e cambaleando, porque ela é a grande vítima desta situação adversa na qual foi sujeitada de forma violenta. Precisamos, portanto, refletir de forma urgente sobre essa crise que está instalada em nossos arraias, precisamos buscar com todo ímpeto de nosso ser, voltar a pregar a Palavra e somente a Palavra e nada mais que a Palavra, para que recebamos a marca, o status da “Verdadeira Igreja”, conforme preceitua a nossa valiosa Teologia Reformada.
D. Martyn Lloyde-Jones afirma que a “mais urgente necessidade da Igreja Cristã da atualidade é a pregação autêntica; e, posto ser a maior e mais urgente necessidade da Igreja, é obvio que também é a maior necessidade do mundo”.[1]
EXPLICAÇÂO
Meus amados em Cristo, a autêntica pregação da Palavra de Deus, também era a principal preocupação do Apóstolo Paulo. No texto que lemos, ele exorta o jovem pregador Timóteo a ser fiel e zeloso com a pregação, o desafia a não esmorecer, a não se vender, a não atender o paladar teológico adocicado dos inimigos da verdade.
Neste texto, Paulo se apresenta como aquele pai dedicado, que não quer ver seus filhos perdidos. Apresenta-se como um experiente e calejado pastor, que procura instruir os obreiros mais jovens a respeito do ministério, mais precisamente sobre a responsabilidade da Pregação. Por isso, suas epístolas endereçadas a Timóteo e a Tito são consideradas pastorais, são cartas de instruções, com conteúdo exortativo, com teor nouteticado e desafiador.
Notamos isto logo no primeiro versículo, quando o apóstolo apela à consciência de Timóteo ao que é mais sagrado conforme o versículo 1: “Conjuro-te perante Deus e Cristo Jesus...”, denotando assim, a importância e a responsabilidade do ministro em relação à Proclamação da Palavra.
Interessante, é que o experiente apóstolo não faz como alguns líderes, que apresentam um Evangelho triunfalista, lucrativo, docético, abstrato, alegorizado, onde tudo parece mágica, não! Ele mostra ao seu destinatário que a Pregação é uma tarefa árdua, um caminho estreito, espinhoso, uma missão cheia de obstáculos, que precisa ser compreendido pelos despenseiros de Deus.
A Pregação é um grande desafio para todo aquele que foi convocado por Deus para esta honrosa missão, um desafio ardente e urgente!
E este é o tema que quero partilhar com os irmãos: “OS DESAFIOS DO PREGADOR”.
Tema este que tem o objetivo de ressaltar alguns princípios, que vem sendo cada vez mais esquecido por uma boa parte dos pregadores, e justamente numa época tão necessitada da genuína Pregação do Evangelho de Cristo.
EM PRIMEIRO LUGAR, TEMOS O GRANDE DESAFIO DE PROCLAMAR A PALAVRA DO SENHOR (V.2).
No grego encontramos a palavra KERYSSO, que em sua forma prática significa “anunciar as boas novas da parte de Deus”. Teologicamente significa falar o que Deus falou.
É interessante que após a palavra KERYSSO, Paulo utiliza o substantivo LOGOS [2], que indica a imensa responsabilidade que envolve a Pregação da Palavra.
Com isso, vemos que Paulo não está persuadindo o jovem Timóteo a proclamar qualquer palavra, não está induzindo o neófito obreiro a anunciar uma simples mensagem. Ele exorta o jovem ministro a proclamar a Palavra, o Logos de Deus, o Verbo encarnado, o próprio Cristo.
Proclame a Palavra! Anuncie Jesus! Pregue a Palavra a tempo ou fora de tempo! Anuncie ao mundo inteiro o Cristo de Deus que veio salvar os eleitos por meio do seu sacrifício!
No capítulo anterior, o apóstolo faz uma firme e ampla defesa da Autoridade das Escrituras afirmando que Ela é: “Inspirada por Deus, útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a educação”, E agora ele conclama seu tutelado a aplicá-la no seu ministério, a proclamá-la com toda força, com todo coração e entendimento.
Olhando para o nosso contexto, vemos que esta exortação é bem atual. Em dias que muitos estão diminuindo a Palavra! Estão relativizando seu conteúdo! Ofuscando seu brilho, nós que professamos a Fé Reformada, temos a obrigação de colocá-la em seu devido lugar. Precisamos resgatar o sentimento dos reformadores, que defenderam a Supremacia da Palavra, a Centralidade da Palavra de Deus.
Eles não aceitaram a visão atenuada romana, onde a Proclamação da Palavra era simplesmente uma exposição dos dogmas e da tradição da Igreja. Não compactuaram com a idéia da época, que reduzia a Pregação da Palavra a um simples acessório litúrgico. Na concepção Reformada a Pregação da Palavra é o Principal Meio de Graça, pela qual Deus se revela aos homens de forma especial!
Dentro do escopo teológico Reformado, a Palavra é mais importante que as ordenanças que servem para selar a Palavra que foi proclamada, ou seja, a ministração das ordenanças não é completa sem a Palavra, pois a mesma não precisa de complemento, porque ela é o sustentáculo das demais ordenanças do Senhor.
E seguindo o pensamento paulino, os reformadores entenderam que a Proclamação da Palavra, deve ser a principal tarefa da Igreja, e a principal ocupação do ministro.
O reformador francês João Calvino, comentando sobre esta responsabilidade, afirma que: “A grande obra do pastor, na qual deve depositar as forças do seu corpo e mente, é a Pregação da Palavra, porque este é o grande instrumento que Deus tem em suas mãos para confirmar sua bendita eleição, salvando os pecadores e tornando-os aptos para a glória celestial. Ó, quanta honra nos deu Jesus, confiando a nós esta nobre obra! Boa coisa é visitar os enfermos, ensinar às crianças e vestir aos que estão nus. Também é bom atender ao ministério do diaconato, escrever ou ler livros. Porém, a principal e maior missão do ministro é Pregar a Palavra!” [3]
O ministro escocês Henry Jowett diz que: “O púlpito é nosso gozo, o nosso trono e a nossa valiosa ferramenta que Deus nos confiou. É a nossa torre de alerta, onde anunciamos as riquezas do céu e edificamos o Corpo Glorioso de Cristo”. [4]
Este é o enorme desafio para nós Pregadores hodierno. Nós que constantemente somos tentados a ceder ao modismo, às inovações que aparecem e desaparecem todos os dias. Precisamos compreender este propósito primário da Pregação. Resgatar este sentimento que nos dá a mais plena consciência, que a Proclamação da Palavra é a tarefa primordial e mais sublime da Igreja e dos seus ministros.
Por isso, o pastor Richard Baxter alertou seus colegas ministros sobre a ameaça da desvalorização da Pregação dizendo: “Não deixemos que nada diminua a Pregação da Palavra, pois quando o Ministro perde o zelo com a Pregação, está perdendo o zelo com o seu Senhor, está desvalorizando a si mesmo, correndo o risco de ouvir a dura sentença proferida pelo próprio Deus, no livro de Ez. Cap. 34. V 10: “Eis que Eu estou contra os pastores que se servem das minhas ovelhas.”[5]
Busquemos meus irmãos, esta visão tão elevada no que tange a Pregação, porque sem ela, a nossa mensagem se reduz a um eco desesperado, sem sentido, sem conteúdo e sem resultado.
Anunciemos a Palavra porque ela é o poder de Deus, para a salvação de todo aquele crer!
EM SEGUNDO LUGAR, TEMOS O GRANDE DESAFIO DE DEFENDER A VERDADE (VV. 2-4).
É claro que Palavra e Verdade se harmonizam, e podem criar uma redundância, na nossa exposição, mas analisando semanticamente as funções das duas palavras, vemos que cada uma recebe conotações submissas em suas ações.
Palavra e Verdade andam e trabalham juntas, uma sustentando a outra. A Palavra deve ser proclamada não aleatoriamente, mas em defesa da verdade, por isso, no versículo 2, Paulo sistematiza o conteúdo da sua predica, indicando a Timóteo os passos que ele deve seguir.
Defender a verdade aqui não é simplesmente criar um discurso polêmico, mas apologético. Nas palavras do Apóstolo ela recebe um significado muito mais abrangente, acentuando a luta contra todos os possíveis obstáculos existentes na época. Uma luta contra os opressores de plantão, contra os falsos mestres que se levantaram em oposição à verdade espalhando heresias sem nenhum temor.
Em sua sistematização da Pregação, Paulo desnuda sua coragem diante de Timóteo. Ele incute na alma do jovem pregador os imperativos da Pregação destemida e eficaz, mostrando que a defesa e o anúncio da verdade, muitas vezes não atende o paladar humano, mas cria um confronto entre a Verdade Restauradora de Deus e o coração corrompido dos homens. E segundo o Dr. Martin Lloyd Jones, “o coração corrompido dos homens é o ventre da mentira, onde ela se prolifera e atinge a plenitude de toda maldade”.[6] Isso nos dá a noção do desafio que Paulo estava incumbindo seu discípulo. Dá-nos a idéia do grande desafio que permeia o Ministério da Pregação.
E como nós já vimos no tópico anterior, a pregação é uma obra desafiadora, onde não existe lugar para os descamisados que se aventuram sem nenhum propósito. Ela não é obra para ser desenvolvida por pessoas que vivem oscilando entre céu e inferno. Por meninos que vivem agitados pelos ventos contrários de doutrinas que sopram fortemente em nossos dias. Por gente de psiques perturbadas, sentimentos confusos e indefinidos teologicamente. Mas por homens resolvidos, destemidos, transformados e comprometidos com a Verdade, que é Palavra de Deus. Homens que confiaram suas cabeças ao céu, seu coração ao Senhor e que doaram sua vida pela causa de Cristo.
O veterano apóstolo conclama Timóteo a exercer sua voz profética por meio da: “correção, repreensão, longanimidade e doutrina”, que são componentes da VERDADE anunciada implicitamente no Versículo 4.
Podemos entender também que Paulo está convocando seu discípulo a se PREVINIR, e, ZELAR pelo seu rebanho, contra os ataques dos inimigos da Verdade.
Esta convocação é urgente em nossos dias, devido aos constantes ataques que a Fé Cristã vem sofrendo na contemporaneidade. Como aconteceu no passado, vemos hoje também, muitos indivíduos na ânsia de construir uma nova realidade, um novo mundo, desfigurando a Verdade e criando várias partículas da mesma. Hoje muitos estão entronizando a razão como uma deusa, e cada vez mais o homem vem se tornando o centro e a medida de todas as coisas. A apostasia vem crescendo e se espalhando rapidamente, e no âmbito religioso, o pensamento moderno vem agredindo covardemente o Povo de Deus, atacando “A Inspiração e a Infalibilidade das Escrituras”.
Não é difícil encontrar grupos investindo contra a veracidade da Palavra de Deus, com uma falsa erudição que mostra que todos nós, filhos da ciência moderna, devemos remover as bases da nossa fé Bíblica. Isso sem falar nas correntes teológicas que surgiram nos últimos anos, como o câncer do liberalismo, que ainda vem produzindo incredulidade e confusão.
O Rev. John MacArthur em sua Obra “Com Vergonha do Evangelho” diz que:
“Tomemos cuidado, porque o liberalismo está bem vivo e muito mais perigoso do que nunca. No século passado era mais fácil combatê-lo porque era fácil identificá-lo, hoje ele transita em nosso meio destilando seu veneno sutilmente sem que a Igreja perceba antes de ser contaminada. Eles estão soltos, camuflados em nosso meio e minando diversas Igrejas, que estão perdendo seus membros e declinando maciçamente”. [7]
E não nos esqueçamos que o liberalismo teológico é fruto do racionalismo, do subjetivismo e de uma dialética filosófica, que não coadunam com a Verdade revelada na Palavra de Deus. Para eles a Bíblia não é a Palavra de Deus, ela simplesmente contém a Palavra de Deus. A Bíblia é em parte a Palavra de Deus e em parte a palavra de homens. Eles colocam a razão humana acima da totalidade das Escrituras, alterando sua essência, concedendo a mesma uma dupla natureza, divina e humana.
Eles negam e jogam no lixo, o cristianismo histórico, olham para o passado com desprezo e arrogância, jogam no esquecimento as glórias dos nossos pais e desdenham do empenho daqueles que investiram e se esmeraram arduamente na obra Senhor.
Meus queridos pastores, mestres amados, hoje, mais do que nunca, a verdadeira pregação das Escrituras precisa ser defendida! Isto porque, só existe uma forma para lutar contra o erro e combater a mentira que permeia diante de nós: Pregando e defendendo a verdade. Somente a fiel pregação bíblica arrancará as interrogações da mente humana, mostrará ao mundo quem são os falsos mestres e trará o real crescimento para a Igreja de Deus, por meio da Sã doutrina. E então, aqueles que sofrem de sarna espiritual, serão transformados ou afugentados do nosso meio.
Anunciemos, pois à verdade em defesa da nossa Fé, em defesa do puro Evangelho pregado por Cristo, e pelos mártires cristãos. A verdade nos impedirá, de vivermos tropeçando em plena luz do meio dia. Nos livrará dos lobos vorazes que atacam sorrateiramente o povo de Deus.
Os despenseiros de Deus devem anunciar e defender a Verdade, porque ela conduzirá os eleitos de Deus para a Nova Jerusalém, e também, qualificará a Igreja como autêntica Noiva do Senhor Jesus. Para Calvino, uma comunidade só poderia ser chamada de Igreja se houvesse nela a fiel pregação da Palavra, a correta administração dos sacramentos e a aplicação da disciplina eclesiástica, segundo a instituição de Cristo. Assim, somente essas três eram as marcas distintivas da Igreja, sem as quais não poderia ser chamada de Igreja. Ele diz que temos uma igreja, “onde quer que vemos a Palavra de Deus ser sinceramente pregada e ouvida, onde vemos serem os sacramentos administrados segundo a instituição de Cristo”.[8]
E, não nos esqueçamos! A Igreja é o depósito e o Baluarte da Verdade! Como depósito ela deve protegê-la e guardá-la, como se guarda um tesouro a sete chaves. Como baluarte, ela deve instruir seus filhos a viverem de forma digna e santa.
EM TERCEIRO LUGAR, TEMOS O GRANDE DESAFIO DE CUMPRIR CABALMENTE NOSSA MISSÃO (V.5)
Neste versículo 5, Paulo novamente se volta para Timóteo e faz um apelo bem pessoal. Ele projeta sobre Timóteo sua perspectiva em relação ao labor do seu discípulo, e, espera que Timóte assuma uma postura irrepreensível no ministério que abraçou.
Antes, ele tratou da pregação, agora num particular bem íntimo, ele trata do pregador. Ou seja, Paulo adverte ao iniciante obreiro a ser sóbrio e vigilante.
Isso indica auto-controle, definição pessoal, e impede que o ministro venha caminhar de um extremo a outro, evita uma inconstância na obra que abraçou, uma oscilação teológica e doutrinária.
Mas, o Apóstolo abrange sua recomendação e diz que o obreiro deve ser sóbrio em todas as coisas. Não basta cuidar somente da aparência, tem que ser de fato um Arauto de Deus! Não basta desfrutar das benesses desta obra, tem que entrar na comunhão dos sofrimentos de Cristo!
E todos nós sabemos que a convocação divina para pregação, nunca foi um convite para vivermos encastelados. Muitas vezes é cruzar desertos, áridos e sem vida na certeza que Deus esta conosco. Não é reclinar a cabeça em um travesseiro macio, como muitos pensam, mas é um chamado para uma vida consagrada a Deus, uma vida de muita dedicação e trabalho. Não é para preguiçosos. Não é para desocupados. É uma convocação que muitas vezes é um convite para o sofrimento. E quem não possuir a força conferida por Cristo, será aniquilado impiedosamente nesta caminhada.
Por isso o Apóstolo recomenda: “Suporta as aflições, faze o trabalho de um evangelista...”. Observando atentamente as palavras de advertências neste versículo, vemos que Paulo é uma pessoa decidida, prevenida e preocupada em preparar seu discípulo. E ele pinta um quadro bem atual para a nossa realidade universalizando sua exortação.
Infelizmente, digo isto com muito pesar, vemos hoje, muitas vezes que o movimento Evangélico brasileiro é mais conhecido e noticiado, por causa dos seus escândalos do que pelo seu fiel testemunho. As manchetes destacadas pelos noticiários, muitas vezes nos faz chorar. Foi-se a época em que a figura evangélica era respeitada simplesmente em sua pronúncia, era sinônimo de confiança. Em determinadas situações, temos que explicar porque somos cristãos protestantes. Qual é a nossa postura referente à fé cristã. E por que? Porque alguns líderes não atentam para esta passagem, para as recomendações do Apóstolo Paulo, e, por isso, prestam um verdadeiro desserviço ao Reino de Deus.
Sem falar, nas práticas obscuras, onde a ordem foi invertida. Em muitos segmentos denominados “evangélicos”, o sagrado é quem celebra o terreno. Destronaram o “TODO PODEROSO”, e em seu lugar colocaram uma frágil figura mística.
Quando Paulo fala sobre fazer o trabalho de evangelista, a tônica aqui é fazer de forma correta e fielmente o nosso trabalho. O obreiro não deve se desviar nem para direita e nem para a esquerda, mas ele deve prosseguir firmemente, olhando para o autor e consumador da sua fé. Ele deve empunhar, como bom soldado sua Bíblia, como seu maior estandarte, seguindo avante, proclamando todo o conselho de Deus aos homens.
Ele não deve viver numa redoma mesquinha, calculando os lucros e os prejuízos ministeriais, mas deve saber que no Senhor seu trabalho não é vão, não é infrutífero, não é inútil e sem propósito. Deus esta no controle da sua vida e de seu ministério.
Seu trabalho tem resultados eternos. Deve saber que o seu labor transcende este mero nível terreno, ganha as alturas, alcança o trono de Deus. Ele tem sentido para a sua vida e para a vida da Igreja no plano celestial de Cristo. Por isso, ele deve lutar e se manter íntegro em suas ações. Não deve ceder às tentações que o cercam. Não deve buscar as novidades do mercado da fé. Não deve aderir ao “outro evangelho” que é fantasioso e distante da realidade das Escrituras, do caminho da Cruz de Cristo.
Interessante é que Paulo liga duas funções que são fundamentais para a vida do ministro. No versículo 2, ele diz: “Prega a Palavra, corrige, repreende, exorta...” e agora adverte seu destinatário a fazer o trabalho de um evangelista.
Isso é uma descrição perfeita do ministro! Ele deve estar preparado para ambas às tarefas. Ele não é somente um orador, mas um homem apaixonado pelas almas. Ele não é somente um teorizador, mas um homem de ação, ele fala, ele faz, ele vive o que prega!
Ele não se deixa levar pelas facilidades do seu tempo, mas se esmera em fazer tudo àquilo que Deus confiou em suas mãos, visando à totalidade do seu chamado que é pregar, ensinar, exortar, repreender e evangelizar.
As palavras finais deste versículo 5, são um convite a Timóteo, para que ele busque viver o que professa. Para que ele não divorcie seu discurso da sua prática, mas viva integralmente, cumprindo sua missão de forma cabal, mediante a força que vem do Senhor.
E como nós precisamos aprender esta verdade! Nós que pregamos a Palavra de Deus, que temos uma teologia inquestionável, que possuímos uma ortodoxia imbatível, acima dos padrões existentes!
Nós precisamos viver de forma irrepreensível! Precisamos ter a coragem de anunciar ao mundo a mensagem de Cristo, apesar de constantemente ouvirmos o mundo dizer: não queremos ouvir essa mensagem! Não queremos o evangelho da Cruz!
Como despenseiros fiéis precisamos pregar com a certeza de que é o Espírito Santo que moverá os corações rumo a graça irresistível e a misericórdia de Deus.
Para o grande pregador do século XIX, Charles Haddon Spurgeon, qualquer tentativa de ensinar as Escrituras aos outros, e realizar a obra, é vã sem o auxilio do Espírito Santo. Ele diz que “a menos que o espírito dos profetas esteja repousando sobre nós, o manto que usamos não passa de um traje tosco e enganoso. [...] Se não temos o Espírito que Jesus prometeu, não podemos cumprir a comissão que Jesus nos deu”.[9]
Disse ainda que não somos chamados para proclamar filosofias e metáforas, mas o simples evangelho. A queda do homem, sua necessidade de novo nascimento, o perdão mediante a expiação de Cristo, e a salvação como resultado da fé, são estes os nossos machados de combate e as nossas armas de guerra.[10]
Meus pastores, presbíteros, mestres amados, cumpramos cabalmente o ministério que o Senhor depositou em nossas mãos, para o nosso bem e para glória eterna de Deus!
CONCLUSÃO
E voltando para o nosso contexto e fazendo uma radiografia de nossos dias, vemos que o nosso desafio é enorme. Ele é maior do que a nossa própria vida. Por isso precisamos dar a nossa vida para cumprir este desafio.
É nítido que estamos contemplando um crescimento numérico extraordinário em muitas igrejas na atualidade. Em nossa Pátria a estimativa é que quase 30% da população se declaram evangélicos. Hoje, de fato, temos uma massa, uma grande multidão ao nosso lado. Muitos estão trombeteando lá fora que o Brasil está experimentando um avivamento religioso, onde os evangélicos estão avançando rapidamente, mas quando olhamos para a realidade deste crescimento, para os porões eclesiais dos nossos dias, vemos uma outra bandeira sendo tremulada e não o estandarte da Cruz de Cristo.
Vemos em muitas igrejas, sendo pregado um evangelho raso, corrompido, desfigurado e sem essência. Vemos que este crescimento se limita as canelas dos seus anunciadores, e que suas igrejas estão sendo solapadas pelas heresias do passado e aviltadas pelas novidades do mercado da fé.
Por causa disto, o povo tem sido alimentado pelas migalhas que caem de uma mesa farta. Vive perdido, oscilando e tropeçando em pleno clarão. Vive confessando com o lábio, mas negando com seu coração. Vive atenuadamente aquilo que deveria viver plenamente.
E nós que temos a consciência desta realidade, não basta simplesmente jogar pedra no telhado do nosso vizinho, temos que primeiramente cuidar do nosso rebanho, protegendo-os destes ataques mortíferos, e em seguida, combater esta distorção que vem ganhando força e assustando a todos nós.
A esperança para a Igreja na atualidade passa pela volta à pregação fiel das Escrituras. Chegará o tempo em que as pessoas se sentirão cansadas dessas novidades. Contudo, a verdadeira pregação é sempre atual. A Palavra de Deus é pertinente. Ela jamais fica obsoleta.
Sejamos, pois irmãos, a tocha reluzente da Verdade! Servindo a Deus e Sua amada Igreja, com todo amor e dedicação.
Que Deus nos dê a graça, de sermos esses instrumentos para a fiel pregação das Escrituras. Que o Senhor fortaleça nossa frágil vida e capacite nossas mãos para esta santa e divinal peleja.
[1] LLOYD-JONES, Martin. Pregação e pregadores. 6º Ed. São Paulo: FIEL, 2003. p. 7.
[2] BIBLE WORKS 7.0.012g.
[3] MAIA, Hermisten. Calvino de A a Z. São Paulo – SP: Ed. Vida, 2006. pp. 188 - 191
[4] JOWETT, Henry. O Pregador sua Vida e sua Obra. p. 103
[5] BAXTER, Richard. O Pastor Aprovado. São Paulo – SP: Ed. PES, 1989. pp. 97-99.
[6] JONES, Martin Lloyd. Comentário Romanos: Vol. VI. pp. 223 - 225
[7] MAcCARTHUR, John. Com Vergonha do Evangelho. p. 164
[8] CALVINO, João. As Institutas ou tratado da religião cristã. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1989. IV.i.9.
[9] SPURGEON, Charles Haddon. Lições aos meus alunos. Vol. 1. Trad. De Odayr Olivetti. São Paulo: PES, 2001. p.9.
[10] SPURGEON, Charles Haddon. Lições aos meus alunos. Vol. 2. Trad. De Odayr Olivetti. São Paulo: PES, 2001. p.119.

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