16 de out de 2007

CONCEITUANDO TEOLOGIA REFORMADA

Teologia
A palavra “teologia” resulta da junção dos termos gregos: theos (“Deus”) e logos (“estudo”, “tratado”, “discurso”). Platão (427-347 a.C.) usou esse vocábulo com o sentido de história de mitos e lendas dos deuses contada pelos poetas.[1] Na Grécia antiga, os poetas foram os primeiros a se intitular teólogos “por comporem versos em honra aos deuses”,[2] uma vez que teologia referia-se às discussões filosóficas a respeito de seres divinos (teogonias) e do mundo (cosmogonias).
No final do século II, Clemente de Alexandria (c. 150-c. 215) contrapôs theologia a mythologia. Aquela, na condição de verdade cristã a respeito de Deus, era superior às histórias da mitologia pagã.
A palavra “teologia” parece ter sido incorporada à linguagem cristã nos séculos IV e V. Referia-se à genuína compreensão das Escrituras. Contudo, o emprego estava restrito ao conhecimento a respeito da pessoa de Deus.[3] A partir de Theologia christiana, obra de Abelardo (1079-1142), passou a designar um corpo de doutrina.[4]
Os pais da Igreja cognominaram o evangelista João de “o teólogo”, por tratar mais detalhadamente do “relacionamento internodas pessoas da Trindade”.[5] Gregório de Nazianzo (c. 330-389) também recebeu esse título, especialmente pela defesa da divindade de Cristo. João Calvino (1509-1564) foi denominado “o Teólogo” por Filipe Melanchthon (1497-1560).
Limitando-se à etimologia, a disciplina “teologia” normalmente é definida como “ciência que trata de Deus”[6], “pensamento ou raciocínio sobre Deus”. Agostinho (354-430) a define como “razão ou discurso sobre a divindade”.[7] Mesmo no étimo, a concepção não é unívoca. A teologia pode ser concebida como Deus falando dele (o conhecimento que tem de si) ou o homem falando de Deus (o saber que tem acerca do Senhor); ambas são interpretações possíveis.
Outra conceituação comum: teologia é a “ciência da religião”. Essa definição, além de genérica, carece de conceituação do que significa “religião”: se está sendo considerada “subjetivamente” (a soma total das manifestações religiosas) ou “objetivamente” (as obrigações do homem conforme as prescrições divinas). Seja qual for a escolha, teremos dificuldade em conceituar “teologia”.
A teologia pode ser definida operacionalmente como o estudo sistemático da revelação especial de Deus registrada nas Escrituras, tendo por finalidade glorificar a Deus por meio do conhecimento da sua Palavra e da obediência à ela. “O tema e o conteúdo da teologia é a Revelação de Deus.”[8] Dessa concepção, seguindo a linha do teólogo reformado Kuyper (1837-1920),[9] subentende-se que:
1. A teologia nunca é “arquétipa”, mas “éctipa”;[10] não é gerada pelo esforço de nossa observação de Deus, mas é o resultado da revelação soberana e pessoal de Deus. Uma teologia arquétipa pertence somente a Deus, porque apenas ele se conhece perfeitamente, tendo até ciência completa do seu conhecimento perfeito. Por isso, a teologia sempre será o efeito da ação reveladora, inspiradora e iluminadora de Deus através do Espírito; nunca é a causa primeira; sempre é o efeito da ação primeira de Deus em revelar-se. Em todo e qualquer enfoque que dermos à realidade, isto deve ser considerado: “No princípio Deus...”. A teologia sempre é “... relativa à revelação de Deus. Deus precede e o homem acompanha. Este ato seguinte, este serviço, são pensamentos humanos concernentes ao conhecimento de Deus”.[11]
2. A teologia não termina em conhecimento teórico e abstrato, antes se plenifica no conhecimento prático e existencial de Deus através das Escrituras e da iluminação do Espírito. Conhecer a Deus é obedecer a seus mandamentos. Fazer teologia é tarefa da Igreja; não é um estudo descompromissado feito por transeuntes acadêmicos. Brunner (1889-1966) afirma: “Pensamento dogmático não é somente pensar sobre a fé, é um pensar crendo”. [12]
Teologia reformada
Trata-se da teologia oriunda da Reforma (calvinista) em distinção à luterana. O designativo “reformada” é preferível ao “calvinista”[13] — ainda que o empreguemos indistintamente —, considerando o fato de que a teologia reformada não provém estritamente de Calvino.[14]
[1]A República, 7.ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 378b-3; 379a.
[2]AGOSTINHO, A cidade de Deus, XVIII.14.
[3]Cf. MCGRATH. Alister E, Historical Theology, p. 1.
[4]Cf. A. H. STRONG, Systematic Theology, p. 1.
[5]A. H. STRONG, Systematic Theology, p. 1.
[6]Louis BERKHOF (1873-1957) diz que em geral os teólogos reformados conceberam esta definição (Introduccion a la Teologia Sistemática, p. 30).
[7]AGOSTINHO.A cidade de Deus, vol. 1, VIII.1, p. 301.
[8]John MACKAY, Prefacio a la Teologia Cristiana, p. 28.
[9]Principles of Sacred Theology, § 60, p. 257s.
[10]Éctipo vem do grego ektupon (“cópia de um modelo” ou “reflexo de um arquétipo”), passando pelo latim ectypus (“feito em relevo”, “saliente”). É o oposto a arquétipo (do grego archétupon = “original”, “modelo”).
[11]BARTH, Karl, The Faith of the Church, p. 27.
[12] Dogmática, vol. 1, p. 18.
[13]A expressão calvinismo foi introduzida em 1552 por Joacquim Westphal (c. 1510-1574), polemista e pastor luterano em Hamburgo, para referir-se aos conceitos teológicos de Calvino, que deplorou a expressão. Karl Barth disse corretamente: “‘Calvinismo’ é um conceito que devemos aos historiadores modernos. Quando o usarmos, tenhamos a certeza que as Igrejas reformadas do século XVI, do século XVII, e mesmo a do século XVIII, jamais se nomearam ‘calvinistas’” (Calvin, p. 10). Para mais informações, consulte W. S. REID, “Tradição reformada”, em Walter A. ELWELL, Enciclopédia histórico-teológica da Igreja cristã, vol. III, p. 562. Veja também MCGRATH, Alister E. Reformation Thought, p. 9; A Life of John Calvin, p. 202-203.
[14]Cf. MCGRATH, Alister E. Teologia sistemática, histórica e filosófica, p. 99.
FONTE: MAIA, Hermisten. Fundamentos da Teologia Reformada. São Paulo:Mundo Cristão, 2007. pp. 7-9.

3 comentários:

Anônimo disse...

caro Ricardo:

De fato, falar em Fé Reformada é mais apropriado do que em Fé Calvinista, pois como bem lembra Lloyd-Jones, a fé reformada busca acima de tudo a glória de Deus, não sendo apropiada a associação com homens, que podem errar, como calvinistas também o podem fazer; mas, a colaboração calvinista é uma bênção como bem indica www.propostascalvinistas.blogspot.com. Sucesso e bênção para você.

JORGE RIOS disse...

Caro Ricardo,
Poderia me indicar um comentário bíblico coerente com a teologia reformada? De preferência que abranja Velho e Novo Testamentos e que não seja muito caro.
Grato,
Jorge

Ricardo disse...

Prezado Jorge,
os comentários da editora Cultura Cristã são ótimos!
Um grande abraço.

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