25 de out. de 2007

O Fruto do Espírito

"Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, temperança, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei”(Gálatas 5:22,23).
v.22. Mas o fruto do Espírito. Justamente como havia condenado toda a natureza humana como nada produzindo senão frutos nocivos e indignos, agora nos diz que todas as virtudes, todas as boas e bem ordenadas afeições procedem do Espírito, ou seja, da graça de Deus e da natureza renovada que recebemos de Cristo. Como se houvera dito: “Nada, senão o mal, procede do homem; nada de bom pode proceder senão do Espírito Santo”. Pois ainda que às vezes surjam nos homens não regenerados notáveis exemplos de nobreza, fidelidade, temperança e generosidade, o fato é que não passam de marcas ilusórias. Curio e Fabricio foram famosos por sua coragem; Cato, por sua temperança; Scipio, por sua bondade e generosidade; Fabio, por sua paciência. Mas tudo isso era apenas aos olhos dos homens e como membros da sociedade. Aos olhos de Deus, nada é puro senão o que procede da fonte de toda a pureza.
Não tomo alegria, aqui, no sentido de Romanos 14:17, mas como aquele bom humor [hilaritas] para com nossos companheiros, o qual é o posto de melancolia. é usada para verdade, e é contrastada com astúcia, engano e falsidade. Paz contrasto com rixas e contendas. Longanimidade é a suavidade da mente, a qual nos dispõe a levar tudo com otimismo, não permitindo a suscetibilidade. O restante é óbvio, pois a condição da mente se abre a parte de seu fruto.
Pode-se perguntar, porém, que juízo formaremos dos perversos e idólatras que, não obstante, exigem extraordinária semelhança de virtudes. Pois pelo prisma de suas obras parecem espirituais. Eis minha resposta: nem todas as obras da carne despontam numa pessoa carnal; mas sua carnalidade é exibida por um ou outro vício; assim como uma pessoa não pode ser tida como espiritual pelo prisma de uma única virtude. Às vezes se fará óbvio à luz de outros vícios que a carne reina em tal pessoa; e isso é facilmente visto em todos aqueles a quem mencionamos.
V. 23. Contra tais coisas não há lei. Há quem entenda isso como significando simplesmente que a lei não é dirigida contra as boas obras, visto que das boas maneiras têm emanado boas leis. Mas a intenção de Paulo é mais profunda e menos óbvia, ou seja: onde o Espírito reina, a lei não mais exerce qualquer domínio. Ao modelar nossos corações segundo sua própria justiça, o Senhor nos liberta da severidade da lei, de modo que não trata conosco segundo o pacto da lei, nem obriga nossas consciências sob sua condenação. Não obstante, a lei continua a exercer seu ofício de ensinar e exortar. Mas o Espírito de adoção nos livra da sujeição a ela devida. Paulo, pois, ridiculariza os falsos apóstolos, os quais forçavam a sujeição à lei, mas que ninguém estava mais ansioso do que eles para livrar-se do jugo dela. Paulo nos diz que a única forma pela qual isso se faz possível é quando o Espírito de Deus assume o domínio. À luz desse fato, segue-se que eles não se preocupavam com a justiça espiritual.
Fonte: Extraído do comentário de Gálatas de João Calvino, publicado pela Editora Paracletos, páginas 170 e 171.

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A Luta Que Ele Venceu Por Nós!

Uma das mais simples (com certeza não gastaram muito dinheiro para isso), e belas ilustrações sobre a nossa queda, luta e o que representa o sacrifício de Cristo na cruz por nós.
Ao som de Everything Skit do Lifehouse:

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SIGA SEU SONHO

“Você não pode ser o que almeja ser se estiver satisfeito com aquilo que você é”.
Robin Sharma

Tenho um amigo, chamado Monty Roberts, que tem um rancho em San Isidro. Ele me emprestou sua casa para realizar eventos com a finalidade de levantar dinheiro para programas em prol dos jovens em perigo.
Da última vez em que estive lá, ele me apresentou dizendo:
– Quero dizer-lhes por que deixo Jack usar minha casa. Isso remonta a uma história de um jovem rapaz, filho de um treinador de cavalos itinerante, que vivia de estrebaria em estrebaria, de pista de corridas em pista de corridas, de fazenda em fazenda e de rancho em rancho, treinando cavalos. Conseqüentemente, o curso de segundo grau do garoto era constantemente interrompido. Quando estava no último ano, lhe pediram que escrevesse sobre o que queria ser e fazer quando crescesse.
Naquela noite, ele escreveu sete páginas sobre seu objetivo de algum dia possuir um rancho de cavalos. Descreveu seus sonhos com riqueza de detalhes e até fez o desenho de um rancho de oitenta hectares, mostrando a localização de todos os prédios, as estrebarias e a pista. Então, desenhou em detalhes a planta baixa de uma casa de quatrocentos metros quadrados, que edificaria nos oitenta hectares do rancho de seus sonhos.
Ele colocou seu coração no projeto e no dia seguinte entregou-o ao professor. Dois dias depois recebeu sua folha de volta. Na página frontal havia um F vermelho e uma mensagem que dizia: “Procure-me depois da aula.”
O garoto do sonho foi ver o professor depois da aula e perguntou:
– Por que recebi um F?
O professor disse:
– Este é um sonho irreal para um rapaz como você. Você não tem dinheiro, vem de uma família itinerante. Não tem recursos. Ter um haras requer muito dinheiro. Você tem que comprar a terra. Tem que comprar os primeiros animais e, mais tarde, terá que pagar impostos enormes. Não há como você possa realizar isso algum dia. – E o professor acrescentou: – Se reescrever estas folhas com um objetivo mais realista, reconsiderarei sua nota.
O garoto foi para casa e pensou muito naquilo. Perguntou a seu pai o que deveria fazer. Seu pai disse:
– Olhe filho, você tem que decidir isso sozinho. No entanto, acho que é uma decisão muito importante para você.
Finalmente, depois de sentar-se diante do trabalho por uma semana, o garoto devolveu o mesmo trabalho, sem fazer nenhuma mudança. E declarou:
– Pode ficar com seu F, que eu ficarei com meu sonho.
Monty voltou-se para o grupo e disse:
– Estou lhes contando esta história porque estão sentados em minha casa de quatrocentos metros quadrados, bem no meio de meu haras de oitenta hectares. Ainda tenho aquele trabalho escolar emoldurado em cima da lareira.
E acrescentou:
– A melhor parte da história é que, há dois verões, aquele mesmo professor trouxe trinta garotos para acampar no meu rancho durante uma semana. Quando estava indo embora, o professor disse:
– Olhe Monty, posso dizer-lhe isso agora. Quando era seu professor, eu era um tipo de ladrão de sonhos. Durante aqueles anos, roubei os sonhos de uma porção de alunos. Felizmente, você teve juízo suficiente para não desistir dos seus.
Não deixe que ninguém roube seus sonhos. Siga seu coração, não importa o que aconteça.
Jack Canfield
"Eu é que sei que pensamentos tenho a vosso respeito, diz o Senhor; pensamentos de paz e não de mal, para vos dar o fim que desejais."
Jeremias 29.11

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Nós, os quadraplégicos, somos seres fortes. Se não fôssemos, não estaríamos por aí atualmente. Sim, somos uma espécie resistente. De muitas formas, fomos abençoados com doses de sabedoria e humor que não são concedidas a todos.
E, permitam-me dizer, toda essa recusa de aceitação total ou completa da deficiência de alguém está conectada a uma única coisa – fé, uma fé quase divina.
Lá embaixo, na recepção do Instituto de Medicina Física e Reabilitação em East River, Rua 34, East 400, na cidade de Nova York, há uma placa de bronze pregada à parede. Durante os meses em que freqüentei o Instituto para tratamento – duas ou três vezes por semana – passei por aquela recepção muitas vezes – indo e vindo. Mas nunca parei o suficiente para me afastar para o lado e ler as palavras que estão escritas naquela placa, segundo dizem, proferidas por um soldado confederado anônimo. Então, certa tarde, li a placa. Li e reli. E, quando terminei de ler pela segunda vez, estava a ponto de explodir – não de desespero, mas de uma força interior, que me fazia querer arrancar os braços de minha cadeira de rodas. Gostaria de compartilhar com vocês essas palavras...
UM CREDO PARA OS QUE SOFREM
Pedi a Deus força, para que pudesse realizar.
Fui feito fraco, para que aprendesse a obedecer humildemente...
Pedi saúde, para que pudesse realizar grandes feitos.
Me foi dada a enfermidade, para que eu pudesse fazer coisas melhores...
Pedi riquezas, para que pudesse ser feliz.
Me foi dada a pobreza, para que eu fosse sábio...
Pedi poder, para que eu pudesse exercê-lo sobre os homens.
Me foi dada a fraqueza, para que eu pudesse sentir a necessidade de Deus...
Pedi todas as coisas, para que pudesse aproveitar a vida.
Me foi dada a vida, para que eu pudesse aproveitar todas as coisas...
Não obtive nada do que pedi – mas tudo por que ansiava.
Quase a despeito de mim mesmo, minhas orações silenciosas foram atendidas.
Sou, entre os homens, o mais plenamente abençoado!
Roy Campanella

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24 de out. de 2007

O horário de verão chegou... O problema com o horário


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Hillsong United é mais buscado que Holy Bible no Google

Google Trends é um serviço que exibe várias estátisticas, de acordo com palavras chaves que foram pesquisadas no buscador.
É um serviço bem legal para se comparar besteiras, ver quem é melhor que quem, demonstrar superioridade das bandas que você curte em relação às preferidas dos amigos.
Claro que sua imaginação é livre para inventar combinações mirabolantes,e brincar por horas no GTrends.
Um belo dia (ontem), digitei a combinação “Hillsong United, Holy Bible", e olha o susto que o gráfico me deu (a linha vermelha é a Bíblia, e a azul é o United):

Sim pessoal! Em 2006, lançamento do United We Stand, o Hillsong United deu uma rasteira na Bíblia Sagrada e passou a ser mais buscado no Google. O Brasil está em 5º lugar, na lista de países que mais buscam pela banda worship mais relevante nas igrejas do mundo, só que leva um banho da Guatemala, que diga-se de passagem é um país minúsculo na América Central.
Se você avaliar o gráfico, vai perceber que no segundo semestre de 2007, mês da turnê na América Latina, as buscas alcançaram o seu auge, e depois tiveram uma queda, que quase raspa na Bíblia de novo.
Pois é… Esta (me refiro aos jovens e adolescentes tietes) é a geração que vai estar a frente da igreja amanhã. E qual a profundidade bíblica que veremos nos nossos futuros pastores? Com certeza teremos ótimos animadores de palco, belíssimos espetáculos multimídia, e popstars cristãos que todos seguirão.
E antes que a legião dos defensores do Hillsong United apareça por aqui, já vou avisando: gosto da banda (grupo/ministério), acho muito legal as letras focalizadas em salvação, sem muito dinheiro e regalias de Deus, [bem ao contrário das composições do Brasil], mas… tudo tem limite.
Fonte: iPODJesus

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Deus é o dono do ouro e da prata


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23 de out. de 2007

O USO DE CATECISMOS E CONFISSÕES REFORMADOS

Limites
Os credos evangélicos no que se refere à formulação doutrinária são relevantes. Depreciá-los “é uma negação prática da direção que no passado deu o Espírito Santo à Igreja”.[1] Em contrapartida, temos de entender — aliás, como sempre foi entendido pelos reformados — que os credos têm limite; eles são uma resposta do homem à Palavra de Deus e sumariam os artigos essenciais da fé cristã. Dessa forma, os credos pressupõem a fé, mas não a geram; esta é obra do Espírito Santo através da Palavra (Rm 10:17).
Os credos baseiam-se na Palavra, mas não são a Palavra — nem isso foi cogitado por seus formuladores; eles não podem substituir a Bíblia; somente ela gera vida pelo poder de Deus (1Pe 1:23; Tg 1:18). Para os reformados, os credos têm autoridade decorrente das Escrituras; seu valor não é intrínseco, mas extrínseco: eles são recebidos e cridos enquanto permanecem fiéis à Bíblia; assim, a autoridade deles é relativa. Para que então os credos, se temos a Bíblia? O Dr. A. A. Hodge (1823-1886) apresenta relevante observação:
Todos os que estudam a Bíblia fazem isso necessariamente no próprio processo de compreender e coordenar seu ensino; e pela linguagem de que os sérios estudantes da Bíblia se servem em suas orações e outros atos de culto, e na sua ordinária conversação religiosa, todos tornam manifesto que, de um ou outro modo, acharam nas Escrituras um sistema de fé tão completo como no caso de cada um deles lhe foi possível. Se os homens recusarem o auxílio oferecido pelas exposições de doutrinas elaboradas e definidas vagarosamente pela Igreja, cada um terá de elaborar o próprio credo, sem auxílio e confiando apenas na sua sabedoria. A questão real entre a Igreja e os impugnadores de credos humanos não é, como eles muitas vezes dizem, uma questão entre a Palavra de Deus e os credos dos homens, mas é questão entre a fé provada do corpo coletivo do povo de Deus e o juízo privado e a sabedoria não auxiliada do objetor individual.[2]
Os credos são somente aproximação e relativa exposição correta da verdade revelada. Eles podem ser modificados pelo progressivo conhecimento da Bíblia, que é infalível e inesgotável. Por isso, não devemos tomá-los como autoridade final para definir um ponto doutrinário: os limites da reflexão teológica estão na Palavra. Os credos não estabelecem o limite da fé, antes a norteiam. As Escrituras sempre serão mais ricas que qualquer pronunciamento eclesiástico, por mais bem elaborado e mais fiel que seja à Bíblia. A firmeza e vivacidade da teologia reformada estão justamente em basear seu sistema em todo o desígnio de Deus, submetendo-o ele, que fala através da sua Palavra. A Confissão de Westminster diz:
O Juiz Supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser determinadas, e por quem serão examinados todos os decretos de concílios, todas as opiniões dos antigos escritores, todas as doutrinas de homens e opiniões particulares, o Juiz Supremo, em cuja sentença nos devemos firmar, não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na Escritura.[3]
Valor e importância
A idéia de credos desagrada a muitas pessoas, que os imaginam como empobrecimento espiritual ou amordaçamento do Espírito etc. Nessa perspectiva, a doutrina tem pouco valor; o que importa é a “vida cristã”. Daí as ênfases nas “experiências” — que, via de regra, pretendem convalidar a Palavra — ou num “evangelho” puramente ético-social. Todavia, ambos os comportamentos equivocados pecam por não compreender que a base da vida cristã autêntica é a sólida doutrina vivenciada (cf. 1Tm 4:16). Esse ponto foi salientado por D. M. Lloyd-Jones (1899-1981):
Toda a doutrina cristã visa levar, e foi destinada a levar a um bom resultado prático. [...] A doutrina visa levar-nos a Deus, e a isso foi destinada. Seu propósito é ser prática [...] a nossa vida cristã nunca será rica, se não conhecermos e não aprendermos a doutrina.[4]
Você não poderá ser santo se não conhecer bem a doutrina. Doutrina é a ligação direta que leva à santidade. É somente quando compreendemos estas verdades fundamentais que podemos atender ao apelo lógico para a conduta e o comportamento agradáveis a Deus.[5]
Os elementos a seguir atestam a importância e o valor dos credos:
1.
Facilitam a confissão pública de nossa fé.
2. Oferecem de forma abreviada o resultado de um processo cumulativo da história, reunindo as melhores contribuições de servos de Deus na compreensão da verdade. A ciência não é privilégio de um povo ou de um indivíduo. Todo cientista — usando a figura de João de Salisbury (c. 1110-1180) — equivale a um anão nos ombros de gigantes, valendo-se das contribuições dos predecessores, a fim de poder enxergar um pouco além deles. Podemos aplicar essa figura à teologia e à tradição, como o fez J. I. Packer: “A tradição nos permite ficar sobre os ombros de muitos gigantes que pensaram sobre a Bíblia antes de nós. Podemos concluir pelo consenso do maior e mais amplo corpo de pensadores cristãos, desde os primeiros Pais até o presente, como recurso valioso para compreender a Bíblia com responsabilidade. Contudo, tais interpretações (tradições) jamais serão finais; precisam sempre ser submetidas às Escrituras para mais revisão”.[6]
3. São uma exigência natural da própria unidade da Igreja, que exige acordo doutrinário (Ef 4:11-14; Fp 1:27; 1Co 1:10; Jd 3; Tt 3:10; Gl 1:8-9; 1Tm 6:3-5).
4. Visto que o cristianismo é um modo de vida fundamentado na doutrina, os credos oferecem uma base sintetizada para o ensino das doutrinas bíblicas, facilitando sua compreensão, a fim de que os cristãos sejam habilitados para a obra de Deus. Spener (1635-1705), luterano e “fundador” do “Pietismo” — que se opunha ao “escolasticismo protestante” —, insistia com os pastores em que ensinem às crianças e aos adultos, com as Escrituras, o Catecismo menor, de Lutero, visto ser fundamental para a sedimentação da fé.[7]
5. Preservam a doutrina bíblica das heresias surgidas no decorrer da história, revelando-se de grande utilidade, especialmente nas questões controvertidas, dando-nos uma exposição sistemática e norteadora a respeito do assunto.
6. No que se refere à compreensão bíblica, permitem distinguir nossas igrejas das demais.
7. Servem de elemento regulador do ensino ministrado na Igreja, bem como de seu governo, disciplina e liturgia. James Orr (1844- 1913), na obra-prima O progresso do dogma, disse: “.... A idade da Reforma se destacou por sua produtividade de credos. Faremos bem se não menosprezarmos o ganho que resulta para nós destas criações do espírito do século XVI. Cometeremos grave equívoco se, seguindo uma tendência prevalecente [1897], nos permitirmos crer que são curiosidades arqueológicas. Estes credos não são produtos ressecados como o pó, senão que surgiram de uma fé viva, e encerram verdades que nenhuma Igreja pode abandonar sem certo detrimento de sua própria vida. São produtos clássicos de uma época que se comprazia em formular credos, com o qual quero dizer, uma época que possuía uma fé que é capaz de definir-se de modo inteligente, e pela qual está disposta a sofrer se for necessário — e que, portanto, não pode por menos que expressar-se em formas que não tenham validade permanente — [...]. Estes credos se têm mantido erguidos como testemunhos, inclusive em período de decaimento, às grandes doutrinas sobre as quais foram estabelecidas as Igrejas; têm servido como baluartes contra os assaltos e a desintegração; têm formado um núcleo de reunião e reafirmação em tempos de avivamento; e talvez têm representado sempre com precisão substancial a fé viva da parte espiritual de seus membros...”. Os credos da Reforma dão, e praticamente pela primeira vez, uma exposição conjunta de todos os grandes artigos da doutrina cristã.
8. Servem de desafio para que continuemos a caminhada na preservação da doutrina e na aplicação das verdades bíblicas aos novos desafios de nossa geração, integrando-nos à nobre sucessão dos que amam a Deus e sua Palavra e que buscam entendê-la e aplicá-la, em submissão ao Espírito, à vida da Igreja. Uma tradição saudável tem compromisso com o passado na geração do futuro.[8] Portanto, “o conservadorismo criativo utiliza-se da tradição, não como autoridade final ou absoluta, mas como recurso importante colocado à nossa disposição pela providência de Deus, a fim de nos ajudar a entender o que a Escritura está nos dizendo sobre quem é Deus, quem somos nós, o que é o mundo ao nosso redor e o que fomos chamados para fazer aqui e agora”.[9]
O Antigo e o Novo Testamento usaram esse recurso para auxiliar os crentes na vida doutrinária e prática cristã, expressando também o que a Igreja cria. A teologia reformada honra a Bíblia e os credos da Igreja, enquanto estes permanecerem fiéis às Escrituras.
[1]BERKHOF, Louis. Introduccion a la Teologia Sistematica, p. 22. John STOTT arremata: “Desrespeitar a tradição e a teologia histórica é desrespeitar o Espírito Santo que tem ativamente iluminado a Igreja em todos os séculos” (A cruz de Cristo, p. 8).
[2]Esboços de Theologia, p. 99.
[3]Capítulo I, seção 10.
[4]As insondáveis riquezas de Cristo, p. 85-86.
[5]Idem, p. 254.
[6]“O conforto do conservadorismo”, em HORTON, Michael. Religião de poder, p. 235.
[7]Veja Ph. J. SPENER, Mudança para o futuro, p. 32-33, 57-58, 118.
[8]“A tradição é o sangue da teologia. Separada da tradição, a teologia é como uma flor cortada sem suas raízes e sem o solo, logo murcha na mão. Uma sã teologia nunca nasce de novo. Ao honrar a sã tradição, se assegura a continuidade teológica com o passado. Ao mesmo tempo, a tradição cria a possibilidade de abrir novas portas para o futuro. Como diz o provérbio: ‘A tradição é o prólogo do futuro.’ Por isso, toda dogmática que se preze como tal deve definir sua posição em uma ou outra tradição confessional” (Gordon J. SPYKMAN, Teologia reformacional, p. 5).
[9]J. I. PACKER, “O conforto do conservadorismo”, em HORTON, Michael. Religião de poder, p. 241.
Fonte: MAIA, Hermisten. Fundamentos da Teologia Reformada. São Paulo: Mundo Cristão, 2007. pp. 20-24.

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22 de out. de 2007

Culto na IPCM - Paulo Alberto (PA) da Rádio Livre FM



"...levantarás os fundamentos de muitas gerações e serás chamado de reparador de brechas e restaurador de veredas para que o país se torne habitavél" Isaías 58. 12b

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17 de out. de 2007

Edir Macêdo: aborto, homossexualismo e a cosmovisão da IURD

Agora está claro! Aquilo que era apenas uma inferência e suspeita ficou confirmado com o lançamento da biografia do Edir Macedo (um recorde no mercado editorial brasileiro: 700 mil cópias, na primeira edição) e com a entrevista que ele deu à Folha de São Paulo, em 13 de outubro de 2007. Na entrevista Macedo confirma sua defesa do aborto e apresenta sua visão sobre a questão da homossexualidade. Este exemplar da Folha dedica três páginas do primeiro caderno (A11 a A13) às notícias sobre a igreja de Edir Macedo, e de como ela está envolvida em uma campanha para mudar a sua imagem. Podemos deduzir, também pela entrevista, alguns pontos chaves que compõem a cosmovisão e teologia da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), contidas nessas palavras de seu pontífice máximo.
Cito três perguntas e respostas extraídas da entrevista:
FOLHA: Em sua biografia, o Sr. defende o aborto. Atualmente, a Record e a Record News exibem campanha pelo aborto, por que?
Macedo: Sou favorável à descriminalização do aborto por muitas razões. Porém aí vão algumas das mais importantes:
1. Muitas mulheres têm perdido a vida em fundo de quintal. Se o aborto fosse legalizado, elas não correriam risco de morte.
2. O que é menos doloroso? Aborto ou ter crianças vivendo como camundongos nos lixões de nossas cidades, sem infância, sem saúde, sem escola, sem alimentação e sem qualquer perspectiva de um futuro melhor? E o que dizer das comissionadas pelos traficantes de drogas?
3. A quem interessa uma multidão de crianças sem pais, sem amor e sem ninguém?
4. O que, os que são contra o aborto, têm feito pelas crianças abandonadas?
5. Por que a resistência ao planejamento familiar?Acredito, sim, que o aborto diminuiria em muito a violência no Brasil, haja vista não haver uma política séria voltada para a criançada.
FOLHA: “Deus deu a vida e só Ele pode tirá-la”, segundo a Bíblia (sic). Não é contraditório um líder cristão defender o aborto?
Macedo: A criança não vem pela vontade de Deus. A criança gerada de um estupro seria de Deus? Não do meu Deus! Ela simplesmente é gerada pela relação sexual e nada mais além disso. Deus deu a vida ao primeiro homem e à primeira mulher. Os demais foram gerados por estes. O que a Bíblia ensina é que se alguém gerar cem filhos e viver muitos anos, até avançada idade, e se sua alma não se fartar do bem, e além disso não tiver sepultura, digo que um aborto é mais feliz (Eclesiastes 6.3). Não acredito que algo informe, seja uma vida.
FOLHA: Qual seria sua reação se descobrisse que tem um filho homossexual?
Macedo: Decepcionado. Mas não o rejeitaria de forma alguma. Tentaria ajudá-lo da melhor forma possível. Porque, se Deus respeita a livre opção de vida da criatura humana, por que não o faria eu?
Este post não tem o objetivo de ser uma exposição completa da posição cristã sobre (e contra) o aborto, mas comento, com base nas declarações de Macedo, esses três temas – aborto, homossexualismo e a cosmovisão da IURD:
1. Aborto: Não há base bíblica para as convicções éticas. Elas são formadas a partir de slogans e bandeiras sociológicas do liberalismo. Macedo cita a Bíblia apenas uma vez, fora de contexto, para provar um ponto que o texto não procura substanciar. A lógica de Macedo é falsa e traça conexões e ilações que não se sustentam:
a. Macedo afirma que mulheres morrem ao tentar o aborto (essa premissa, é constantemente repetida, mesmo sem comprovação), portanto é legítimo assassinar crianças com tecnologia (conclusão moralmente errada), para que as mães não morram.
b. Ele apresenta as crianças abandonadas como sendo fruto da ausência de aborto, em vez de uma conseqüência da irresponsabilidade dos pais (a sociedade que quer se preservar agirá nesse último ponto, educando todos os cidadãos a serem bons pais; criando oportunidades de sustento e emprego; etc.).
c. Macedo infere que o repúdio ao abandono das crianças, leva necessariamente à aceitação do aborto (conclusão falsa, de que o aborto é a única opção a este mal social, e de que ele é moralmente neutro, e não condenável).
d. Ele acusa que quem é contra o aborto não faz nada pelas crianças abandonadas (afirmação totalmente falsa: historicamente, os grandes orfanatos; os projetos de adoção; a assistência às mães jovens e solteiras foram implantados por segmentos da sociedade que são contra o aborto e não pelos que são a favor). Para Macedo, eliminar as crianças abandonadas, matando-as antes que nasçam seria a solução. Entretanto, essa é a forma mais cruel e imoral de resolver essa situação de abandono.
e. Macedo diz que aborto é igual a planejamento familiar (essa é uma forma asséptica e indolor, de se referir ao aborto, favorita dos seus proponentes, porque anestesia a consciência e torna a questão acadêmica e palatável, em vez de ética. Os dois termos não são equivalentes).
2. Homossexualismo: Edir Macedo, procurando dar a resposta que agrada à mídia, demonstra, na realidade, a própria rejeição que é enraizada em preconceito, porque não tem nem oferece base metafísica maior (bíblica) para sua posição. Quer ser politicamente correto e diz que aceita o homossexualismo, no entanto, ficaria “decepcionado”, se fosse um filho seu; e procuraria “ajudá-lo” (ajudar em que sentido? A ser aceito pelos demais? A se recuperar? Por que, se ele seria “aceitável”?). O cristão que firma suas convicções a partir das Escrituras, da Palavra de Deus, rejeita a prática porque a identifica como pecado, como disfunção de comportamento – e é claro nisso. Não a chama de “livre opção de vida” aceita por Deus, como faz Macedo; mas reconhece como uma “opção de vida” condenada por Deus – como várias outras o são.
3. Cosmovisão da IURD:
a. Visão deista/semi-intervencionista – Ao dizer que as crianças “não vêm pela vontade de Deus” e que “a criança gerada de um estupro” estaria fora do controle de Deus (“Não do meu Deus”, diz ele); e ao segregar a ação de Deus na doação da vida apenas “ao primeiro homem e à primeira mulher” sendo as demais crianças meramente “geradas por estes”; Macedo está na realidade adotando uma cosmovisão deista, ou seja: Deus iniciou a criação e deixou as situações e fenômenos naturais se desenrolando. Isso coloca Deus distante e não envolvido (supostamente resolvendo o dilema da responsabilidade) com as questões humanas. Mas como explicar a ênfase nos milagres e nas intervenções divinas, da IURD? É que esse “deismo seletivo”, não construído a partir dos dados da Bíblia, é limitado às situações convenientes. Ocasionalmente, Deus intervém, aqui e ali, consertando as coisas que o homem faz de errado, curando, restaurando relacionamentos. Para motivar Deus a fazer isso, é necessário, entretanto, intenso clamor e bastante fé, senão as coisas continuam como estão.
b. Dualismo espiritual: Macedo diz, na mesma entrevista: “não tenho ódio de ninguém, senão do Diabo e de seus espíritos”. Entretanto, o reconhecimento de um Reino das Trevas, pela IURD, não se prende ao que as Escrituras revelam sobre o assunto. Há a absorção da visão popular de duas esferas que se degladiam, uma vez vencendo uma, outra vez a outra. Para se contrapor às hostes do mal, a IURD utiliza-se do procedimento de exorcismo e de outras atividades que emulam as encontradas exatamente pelos que são classificados como dominados pelos demônios.
c. Práticas religiosas místicas: Na IURD, outros meios de conhecimento religioso são tão importantes quanto as Escrituras, daí as práticas estranhas à Palavra de Deus se misturarem com tanta intensidade na forma cúltica dos seus templos (peças de roupa, lugares santos, essencialidade da cura física, prosperidade como sinal inequívoco de aceitação divina, etc.). O resultado não é a religião verdadeira, mas um misticismo pagão com roupagem cristã.
d. Pragmatismo: Como demonstrado nas palavras do Macedo, na entrevista, as convicções éticas, na IURD, são essencialmente pragmáticas. Avança-se aquilo que é considerado a tarefa messiânica do segmento com quaisquer parâmetros, afirmações, conexões ou práticas, desde que funcionem. Princípios não regem a prática, mas os objetivos, sim. Não há âncora metafísica maior (revelação) para estabelecimento da verdade. Daí a conformação com o que é politicamente correto, com o que agrada às massas.
Estamos testemunhando, portanto, não uma convergência da IURD com o evangelicalismo, mas um afastamento gradativo ainda maior, exatamente porque o que está ditando a agenda daquela Igreja, não é o estudo e exposição da Bíblia (que seria o possível ponto de convergência), mas a sede e busca do poder; o envolvimento fisiológico (e não transformador) com a política e políticos; e uma ação de relações públicas, que a leva a abraçar, sem qualquer pejo, posições claramente contraditadas pela Palavra de Deus.
AUTOR: Solano Portela
FONTE: O Tempora

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OS CREDOS E A REFORMA

Importância e objetivo dos credos
Os credos da Reforma são as confissões de fé e os catecismos produzidos nesse período ou sob sua inspiração teológica. Os séculos IV e V foram para a elaboração dos credos o que os séculos XVI e XVII foram para a feitura das confissões e dos catecismos. A razão parece evidente: na Reforma, as igrejas logo sentiram a necessidade de formalizar a fé, apresentando sua interpretação sobre diversos assuntos que as distinguiam da Igreja Romana. Com o tempo, surgem outras denominações, que discordavam entre si sobre alguns pontos, o que gerou a necessidade de estabelecer princípios doutrinários próprios.
Calvino afirmou que a fé deve ser “explícita”, mas ressaltou que muito do que cremos permanecerá nesta vida de forma implícita por duas razões: a) nem tudo foi revelado por Deus; b) nossa ignorância e pequenez espiritual. Por isso, o ensino e estudo constantes da Palavra do Senhor são necessários, a fim de que cada homem, responsável diante de Deus, tenha condições de se posicionar diante do Criador de forma consciente.[1] A fé explícita é patenteada pela Igreja mediante o ensino da Palavra.
Essa necessidade determina o uso da razão, a fim de apresentar a doutrina de forma mais razoável possível e simples ao mesmo tempo. Amplitude e simplicidade são dois marcos do ensino ortodoxo. O ser humano é responsável diante de Deus, a quem dará contas de si mesmo; portanto, tendo oportunidade, ele precisa conhecer devidamente a Palavra do Senhor em toda a plenitude revelada.
Essas declarações de fé precisavam ser, até certo ponto, completas e simples, para que o cristão não iniciado nas questões teológicas pudesse entender o que estava sendo dito, confrontar esse ensinamento com as Escrituras e assim compreender biblicamente sua fé. Esta não deveria ser apenas “implícita”,[2] mas “explícita”.
OS CATECISMOS
Nesse contexto e com objetivos eminentemente didáticos surgem os catecismos (do gr. katekhéo = “ensinar”, “instruir”, “informar”; cf. Lc 1:4; At 18:25; 21:21,24; Rm 2:18; 1Co 14:19; Gl 6:6), constituídos, em boa parte, de perguntas e respostas. Até o século XVI, a palavra catecismo não fora usada nesse sentido.[3] Os catecismos visavam à instrução de crianças e adultos, e isso contribuiu decisivamente para sua proliferação, sendo que a maioria jamais passou da forma manuscrita, visto que muitos pastores os elaboravam apenas para a congregação local, objetivando atender necessidades doutrinárias.
A primeira obra a receber o título catecismo foi o de Andréas Althamer (c. 1500-1539) em 1528.[4] Os mais influentes no século XVI foram, porém, os de Lutero (1483-1546): o Catecismo maior (1529) e o Catecismo menor (1529), em cujo prefácio Lutero declara por que o redigiu e apresenta sugestões de como ensiná-lo à congregação. Ele quase sempre inicia os capítulos com este teor: “Como o chefe de família deve ensiná-lo com toda a simplicidade à sua casa”, e outras
expressões afins. A respeito de suas motivações, ele declarou:
A lamentável e mísera necessidade experimentada recentemente, quando também eu fui visitador,[5] é que me obrigou e impulsionou a preparar este catecismo ou doutrina cristã nesta forma breve, simples e singela. Meu Deus, quanta miséria não vi! O homem comum simplesmente não sabe nada da doutrina cristã, especialmente nas aldeias. E, infelizmente, muitos pastores são de todo incompetentes e incapazes para a obra do ensino. [...] Não sabem nem o Pai-Nosso, nem o Credo, nem os Dez Mandamentos.[6]
Mais tarde, Calvino elaborou um catecismo intitulado Instrução e confissão de fé, segundo o uso da Igreja de Genebra (1536-1537).[7] Desde 1561, todo ministro da igreja deveria jurar fidelidade aos ensinamentos nele expressos e comprometer-se a ensiná-los.
AS CONFISSÕES
Basicamente, as confissões não foram feitas para a instrução na fé cristã (essa era a função dos catecismos). Elas poderiam ser produzidas individualmente para uso privado (A segunda confissão helvética); por um concílio de uma igreja em particular (Cânones de Dort); por um indivíduo que age como representante de sua igreja (Confissão de Augsburgo); por um grupo de teólogos convocados pelo Estado (Confissão de Westminster); ou escrita como defesa de sua fé durante terrível perseguição (A confissão dos valdenses) etc.
Não havia regra para a elaboração de uma confissão; os contextos eram variados. Apesar de haver motivações comuns a todas elas, existiam circunstâncias especiais que conduziam a determinadas ênfases, especialmente no que se refere às questões relativas ao governo e à Igreja Romana.
Isso levanta o problema da unificação das confissões. Em 1530, Carlos V, imperador da Alemanha, convoca a Dieta de Augsburgo, cujo objetivo era a unificação político-religiosa dos seus domínios. Nasceu então a Confissão de Augsburgo, redigida por Melanchthon, com o consentimento de Lutero. O imperador não a aceitou e proibiu sua divulgação; mesmo assim, em pouco tempo, ela foi propagada em toda a Alemanha.
Calvino entende que a divergência em questões secundárias não deve servir de pretexto para a divisão da Igreja; afinal, todos, sem exceção, estão envoltos de “alguma nuvenzinha de ignorância”.[8] Após argumentar contra aqueles que chamavam os reformados de hereges, ele ressalta que a unidade cristã deve ser na Palavra, baseando- se em Efésios 4:5, Filipenses 2:1,5 e Romanos 15:5.[9]
Para os irmãos refugiados em Wezel (Alemanha), que sofriam diversas pressões dos luteranos e sobreviviam numa pequena igreja reformada, Calvino, em 1554, os consola mostrando que, apesar dos grandes problemas pelos quais passavam o mundo, Deus lhes havia concedido um lugar onde poderiam adorar a Deus em liberdade. Também os desafia a não abandonarem a igreja por pequenas divergências nas práticas cerimoniais, sendo tolerantes a fim de preservar a unidade. Contudo, os exorta a jamais fazerem acordos em pontos doutrinários.[10] Mesmo desejando a paz e a concórdia, Calvino entendia que essa paz nunca poderia ser em detrimento da verdade, pois, se assim fosse, essa “paz” seria maldita.[11]
Respondendo a uma carta de Thomas Cranmer (1489-1556)[12] convidando-o para uma reunião com o objetivo de preparar um credo que fosse consensual para as igrejas reformadas, Calvino, mesmo não podendo ir, o encoraja a manter esse objetivo.[13] A certa altura diz: “... Estando os membros da Igreja divididos, o corpo sangra. Isso me preocupa tanto que, se pudesse fazer algo, eu não me recusaria a cruzar até dez mares, se necessário fosse, por essa causa”.[14]
Já no século XVII, algum progresso nesse sentido é evidente, através de formulações doutrinárias mais completas e também após passar o primeiro ardor apaixonado e exclusivista, ainda que surgissem novos debates teológicos nos séculos XVII e XVIII, no período denominado “ortodoxia protestante”. Mesmo assim, as diferenças permaneceram, mas não ferem pontos cruciais da Reforma, como: A Bíblia como autoridade final, a justificação pela graça mediante a fé, o sacerdócio universal dos santos, a suficiência do sacrifício de Cristo para nos salvar etc.
Assim, os credos da Reforma tinham três objetivos específicos:
01. Evidenciar os fundamentos bíblicos de seus ensinos.
02. Demonstrar que suas doutrinas estavam em acordo com os principais credos da Igreja (Apostólico, Niceno, Constantinopolitano).
03. Demarcar sua posição teológica em relação à teologia romana e às demais correntes provenientes da Reforma.
As confissões provenientes da Reforma (sécs. XVI e XVII) são divididas em dois grupos: luteranas e calvinistas (reformadas).
Principais catecismos e confissões: subsídios históricos
Confissão gaulesa (1559)
Foi escrita por Calvino e seu discípulo Antoine de la Roche Chandieu (De Chandieu) (1534-1591), provavelmente com a ajuda de Theodore Beza (1519-1605) e Pierre Viret (1511-1571). No Sínodo Geral de Paris (26-28/5/1559), reunido secretamente, ela foi revista e ampliada. Calcula-se que a França possuía 400 mil protestantes,[15] existindo em fins de 1561 mais de 670 igrejas calvinistas.[16]
Em 1571, realizou-se o Sétimo Sínodo Nacional de La Rochelle, no qual essa confissão foi revisada, reafirmada e solenemente sancionada por Henrique IV, passando a ser chamada também de Confissão de Rochelle. A Confissão gaulesa influenciou profundamente a Confissão belga (1561) e a Confissão dos valdenses (1655).
Confissão escocesa (1560)
Foi escrita sob a liderança de John Knox (1505-1572) e adotada pelo Parlamento escocês em 17/8/1560, sendo ratificada em 1567. Em 1572, todos os ministros tiveram de subscrevê-la. Ela permaneceu como confissão oficial da Igreja Reformada Escocesa até 1647, quando então a Igreja adotou a Confissão de Westminster.
Confissão belga (1561)
Inspirada na Confissão gaulesa, foi escrita em francês em 1561 por Guido (ou Guy, Wido) de Brès (1523-1567) e outros, sendo revisada e publicada em holandês em 1562, chegando a ocupar lugar de suma importância na Igreja Reformada Holandesa.[17] Foi aprovada no Sínodo de Antuérpia (1566), no de Ambères (1566; após revisão) e em Wessel (1568), e adotada pelo Sínodo Reformado de Emden (1571), pelo Sínodo Nacional de Dort (1574), Middelburg (1581) e pelo grande Sínodo de Dort (29/4/1619), que a sujeitou a minuciosa revisão, comparando a tradução holandesa com o texto francês e latino. Foi traduzida para o holandês (1562) e para o inglês (1768).
A Confissão belga e o Catecismo de Heidelberg (veja mais adiante) são os símbolos de fé das Igrejas Reformadas na Holanda e Bélgica, sendo também o padrão doutrinário da Igreja Reformada na América e na Igreja Evangélica Reformada Holandesa no Brasil.
Trinta e nove artigos da Igreja da Inglaterra (1563)
Em 1552, o arcebispo de Cantebury, Thomas Cranmer, elaborou com outros clérigos Quarenta e Dois Artigos da Religião; após minuciosa revisão, foram publicados em 1553 sob a autoridade do rei da Inglaterra, Eduardo VI. Mais tarde, esses Artigos foram revistos e reduzidos a 39 pelo arcebispo de Cantebury, Matthew Parker (1504- 1575), e outros bispos. Esse trabalho de revisão e redução foi ratificado pelas duas Casas de Convocação, sendo os Trinta e nove artigos publicados por autoridade do rei em 1563. Em 1571, tornou-se obrigatória a subscrição desses Artigos por todos os ministros ingleses.
Os Trinta e nove artigos e o Livro de oração comum (1549) são os símbolos de fé da Igreja da Inglaterra e, com algumas alterações, das demais igrejas da Comunhão Anglicana.
Catecismo de Heidelberg (1563)
Foi escrita por dois jovens teólogos: Caspar Olevianus (1536-c. 1587), professor de teologia na Universidade de Heidelberg, que recebeu influência de Melanchton e de Peter Martyr Vermigli (1560-1562), e Zacharias Ursinus (1534-1583), ex-aluno de Melanchton, em Wittenberg (1550-1557), e amigo de Calvino.
No prefácio da primeira edição, Frederico III, o “Piedoso” (1515-1576), estabeleceu três propósitos para esse catecismo: 1) instrução catequética; 2) guia para pregação; e 3) forma confessional de unidade. Ele foi o primeiro príncipe alemão a adotar um credo reformado distinto do luterano.
Adotado por um Sínodo de Heidelberg (19/1/1563), esse catecismo foi aceito também na Escócia, servindo de modo especial para o ensino das crianças. O Sínodo de Dort também o aprovou. Heidelberg é o símbolo das igrejas reformadas da Alemanha, da Holanda, dos Estados Unidos e do Brasil.
Os dois pontos fortes desse catecismo são o aspecto não polêmico (com exceção da pergunta 80) e o tom pastoral; suas respostas são uma declaração pessoal de fé, tendo as verdades teológicas aplicação bem direta às necessidades cotidianas do povo de Deus.
Por ter sido traduzido para todas as línguas européias e muitas asiáticas, P. Schaff (1819-1893) diz que Heidelberg “tem o dom pentecostal de línguas em raro grau”.[18]
Segunda confissão helvética (1562-1566)
Foi primariamente elaborada em latim, em 1562, pelo amigo, discípulo e sucessor de Zuínglio (1484-1531), Henry Bullinger (1504-1575). Em 1564, quando a peste voltou a atacar em Zurique, Bullinger perdeu a esposa e as três filhas. Ele mesmo ficou doente, mas foi curado. Nesse ínterim, fez a revisão da confissão de 1562. Como espécie de testamento espiritual, anexou-a ao seu testamento, para ser entregue ao magistrado da cidade, caso falecesse. Essa confissão foi traduzida para vários idiomas (incluindo o árabe) e teve ampla aceitação em diversos países, sendo também adotada na Escócia (1566), Hungria (1567), França (1571) e Polônia (1578). Tornou-se “o elo [...] para as igrejas calvinistas espalhadas por toda a Europa”.[19]
Cânones de Dort (1618-1619)
O Sínodo de Dort reuniu-se por autoridade dos Estados Gerais dos Países Baixos, em Dordrecht, Holanda, de 13/11/1618 a 9/5/1619. O Sínodo foi constituído de 35 pastores, um grupo de presbíteros das igrejas holandesas, 5 catedráticos de teologia dos Países Baixos, 18 deputados dos Estados Gerais e 27 estrangeiros, de diversos países da Europa, tais como Inglaterra, Alemanha, França e Suíça. Dort rejeitou os chamados “Cinco pontos do arminianismo”.[20] Os Cânones de Dort foram aceitos por todas as igrejas reformadas como expressão correta do sistema calvinista.
Confissão de Westminster e catecismos (1647-1648)
A Confissão de Westminster, o Catecismo maior (1648) e o Catecismo menor (1647) foram redigidos na Inglaterra, na Abadia de Westminster, por convocação do Parlamento. A assembléia funcionou de 1º/7/1643 a 22/2/1649. O objetivo primário era a revisão dos Trinta e nove artigos. Trabalharam no texto da confissão 121 teólogos e 30 leigos nomeados pelo Parlamento (20 da Casa dos Comuns e 10 da Casa dos Lordes), 8 representantes escoceses, 4 pastores e 4 presbíteros, “os melhores e mais preclaros homens que possuía”.[21]
Os principais debates não foram de ordem teológica (quase todos eram calvinistas), mas sobre o governo da Igreja. “Embora houvesse diversidade quanto à Eclesiologia, havia unidade quanto à Soteriologia”.[22] Nesse ponto, havia quatro partidos: episcopais, presbiterianos, independentes (congregacionais) e erastianos.[23] Esses últimos entendiam que o trabalho do pastor era o de ensino; o pastor é o mestre. Prevaleceu, no entanto, o sistema presbiteriano de governo.
O Breve catecismo foi elaborado para instruir as crianças; o Catecismo maior, especialmente para a exposição no púlpito, mas não exclusivamente. Eles substituíram em grande parte os catecismos e as confissões mais antigos adotados pelas igrejas reformadas de fala inglesa. Apesar de a teologia dos catecismos e da Confissão de Westminster ser a mesma, sendo por isso sempre adotados os três, parece que os mais usados são o Catecismo menor e a Confissão.
Esses credos foram logo aprovados pela Assembléia Geral da Igreja da Escócia. Eles tiveram e têm grande influência no mundo de fala inglesa, máxime entre os presbiterianos — embora também tenham sido adotados por diversas igrejas batistas e congregacionais. No Brasil, esses credos são adotados pela Igreja Presbiteriana do Brasil, Presbiteriana Independente e Presbiteriana Conservadora.
[1]Veja As institutas, III.I.3. Cf. tb. III.2.5s.
[2]Calvino combatera a “fé implícita”, patente na teologia católica romana, chamando- a de “espectro papista” que “separa a fé da Palavra de Deus” (cf. Exposição de Romanos, p. 375).
[3]Veja D. F. WRIGHT, “Catecismos”, em Walter A. ELWELL, Enciclopédia históricoteológica da Igreja cristã, vol. I, 249.
[4]Idem, p. 250.
[5]Lutero viajou pela Saxônia Eleitoral e por Meissen, entre 22/10/1528 e 9/1/1529.
[6]“Catecismo Menor”, em Os catecismos, p. 363.
[7]Esse catecismo (em português: Instrução na fé [Goiânia: Logos, 2003]) é um resumo da primeira edição de As institutas (1536).
[8]As institutas, IV.1.12. Cf. tb. IV.1.15 e O Livro dos Salmos, vol. 2, p. 401.
[9]As institutas, IV.2.5. Calvino afirmou: “... onde os homens amam a disputa, estejamos plenamente certos de que Deus não está reinando ali” (Exposição de 1Coríntios, p. 436). Timothy GEORGE comenta: “Calvino não estava disposto a comprometer pontos essenciais em favor de uma paz falsa, mas ele tentou chamar a igreja de volta à verdadeira base de sua unidade em Jesus Cristo” (Teologia dos reformadores, p. 182-183).
[10]To the Brethren of Wezel, “Letter”, John Calvin Collection, [CD-ROM], n.º 346, p. 32-34.
[11]Exposição de 1Coríntios, p. 437.
[12]Arcebispo de Canterbury, que em 1549 havia elaborado o Livro de oração comum, no qual enfatizava o culto em inglês, a leitura da Palavra de Deus e o aspecto congregacional da adoração cristã.
[13]Todavia, num primeiro momento, era impossível qualquer tentativa nesse sentido, visto haver problemas geográficos, políticos, objetivos circunstanciais diferentes e mesmo problemas doutrinários.
[14]Letters of John Calvin, p. 132-133.
[15]Veja W. WALKER, História da Igreja cristã, vol. II, p. 111.
[16]Veja Jean DELUMEAU, O nascimento e afirmação da Reforma, p. 149-150. Delumeau cita estatística de Coligny, constando a França, em 1562, de mais de 2.150 “comunidades” reformadas (A civilização do Renascimento, vol. I, p. 129).
[17]SCHALKWIJK, Frans L. Igreja e Estado no Brasil Holandês (1630-1654), vol. 25, p. 27.
[18]The Creeds of Christendom, vol. I, p. 536.
[19] O. G. OLIVER JR., “Bullinger”, em Walter A. ELWELL, Enciclopédia histórico-teológica da Igreja cristã, vol. I, p. 216.
[20]Discípulos de James Arminius [Jacó Armínio] (1560-1609), antigo aluno do sucessor de Calvino em Genebra Theodore de Beza (1519-1605).
[21]HODGE, Archibald A.. Confissão de Fé Westminster Comentada por A. A. Hodge, p. 41.
[22]R. T. KENDALL, “A modificação puritana da teologia de Calvino”, em: W. Stanford REID, Calvino e sua influência no mundo ocidental, p. 264.
[23]Assim chamados por seguirem o pensamento de Thomas Erasto (1524-1583), médico de Heidelberg, que defendia a supremacia do Estado sobre a Igreja.
FONTE: MAIA, Hermisten. Fundamentos da Teologia Reformada. São Paulo: Mundo Cristão, 2007. pp. 10-19.
Ilustração: Sínodo de Dordrecht

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16 de out. de 2007

Crescendo em (des)graça

“Jesus Cristo” desembarcou no aeroporto internacional do Rio na sexta-feira de manhã, vindo de Miami, com toda a pinta de turista: chiclete na boca, óculos de sol, Rolex no pulso e corrente de ouro no pescoço. Despontou no saguão, e as 300 pessoas que haviam madrugado ali foram ao delírio. Uma bateria de escola de samba deu início à batucada, e mulatas se requebraram em sinal de boas-vindas.
Seguranças tiveram de abrir passagem. “Jesus Cristo” sorriu, deu a mão aos mais eufóricos e enxugou o suor do rosto com um lenço. Antes de entrar no carro que o levaria para um hotel cinco estrelas na Barra da Tijuca, outro êxtase: tirou o blazer e exibiu tatuado no braço um 666, o número bíblico da besta.
“Jesus Cristo” é uma das alcunhas do porto-riquenho José Luís de Jesús Miranda, de 61 anos, o criador da igreja Crescendo em Graça. A seita destoa das demais denominações evangélicas por ensinar que seu líder é a segunda encarnação de Cristo. “Até minha família pensou que eu estava ficando louco quando revelei ser Jesus Cristo homem”, afirmou Miranda, vigiado por três seguranças, em entrevista concedida ao Estado.
Pelos cálculos da própria igreja, 2 milhões de pessoas em 23 países, a maioria na América Latina, crêem fervorosamente que Cristo reencarnou em Miranda. No Brasil, a presença é relativamente pequena, com menos de 10 mil seguidores. Os pastores brasileiros sonham alto: já têm um programa de rádio e, a exemplo de outras igrejas, alimentam planos de dirigir uma emissora de TV. A empreitada mais recente foi a criação da escola de samba 666, que recepcionou o líder no aeroporto e pretende um dia ser vista na Sapucaí.
A Crescendo em Graça é praticamente desconhecida no Brasil, mas no exterior tem feito barulho. Por causa das provocações que faz aos católicos, José Luís de Jesús Miranda foi proibido de entrar em El Salvador, Honduras e Guatemala. O presidente de El Salvador disse que não aceita em seu país “um louco que diz ser o Messias”.
O líder religioso desembarcou no Brasil no feriado de Nossa Senhora Aparecida e voltaria para os EUA ontem. No fim de semana, comandou uma convenção nacional no Rio. Perto de 1,5 mil pastores e fiéis compareceram.
AO PÉ DA LETRA
A doutrina da Crescendo em Graça é simples. Miranda utiliza trechos estrategicamente selecionados da Bíblia e os interpreta ao pé da letra para argumentar que o sacrifício de Jesus Cristo, 2 mil anos atrás, acabou de vez com o diabo e o pecado.
“Não precisamos imitar o modelo de sacrifício de Jesus para sermos salvos, como mandam as religiões que se dizem cristãs. É um erro. Já estamos todos automaticamente salvos”, diz. Assassinato e roubo não são pecados, mas crimes que se coíbem “com a consciência de cada um e com as leis dos homens”.
Miranda faz da Igreja Católica seu alvo favorito. Costuma ofender o papa Bento XVI e dizer que os padres são “pedófilos de saias”. Em maio, seus seguidores no Brasil fizeram ruidosos protestos na visita de Bento XVI.
Nem os evangélicos escapam. “Se conheço a Igreja Universal do Reino de Deus? Sim, é um negócio de mentiras”, diz. “A Renascer em Cristo? Li no jornal que os líderes foram presos com dinheiro. É a mesma coisa: pregam os ensinamentos de Cristo, um falso evangelho.”
O porto-riquenho conta que decidiu abrir a igreja depois de, nos anos 70, dois anjos aparecerem num sonho e anunciarem a missão. “O Senhor me mandou para Miami”, conta ele, que buscou seu rebanho na comunidade latina. Hoje, seu maior patrimônio é a Telegracia, uma emissora internacional de TV por satélite com sede na Colômbia.
MARKETING
Com boas noções de marketing, a seita aparece com freqüência em jornais e TVs de diversos países. Recentemente, a ex-mulher de Miranda foi à CNN contar que o porto-riquenho é uma farsa. O que mais atrai os meios de comunicação é o fato de os seguidores tatuarem no corpo o número 666 - até mesmo na testa - e chamarem Miranda de “anticristo” (contrário ao modelo de Cristo). Apesar da sugestão, a Crescendo em Graça não tem nada de satânico. O brasão da igreja mostra uma águia copiada do selo dos EUA, e nele se lê: “Governo de Deus na Terra”
Miranda passa o ano visitando suas igrejas. Na semana que vem, visitará Caracas. “Ganhei até o cartão platina da empresa aérea”, diz. O dinheiro vem de doações. Pelo que se viu no evento realizado no Rio, os seguidores são, em grande parte, pobres. Mesmo assim, contribuem. Com orgulho, no sábado, um pastor entregou a “Jesus Cristo”, em nome de todos os fiéis brasileiros, uma grossa pulseira de ouro. Na entrevista ao Estado, Miranda fez questão de mostrar ao repórter um anel de ouro (“com nove diamantes”) e um Rolex (“vale uns US$ 11 mil”). “Ganhei de pessoas que se sentem felizes na Crescendo em Graça”, explicou. “Atualmente, há um empresário que quer me presentear com um avião. Imagino que vão me criticar quando o avião chegar.”
Entrevista
Por que o sr. está proibido de entrar em países da América Central?
Por causa da Igreja Católica. Os presidentes desses países fornicam com os representantes católicos.
O sr. vive no Texas, mas a sede da sua igreja fica na Flórida...
Vivo no Texas porque lá não sou conhecido. Posso sair às ruas e ir às lojas sem que as pessoas me parem para conversar ou xingar.
O sr. mantém sua raiz caribenha?
Tento. Gosto da comida e da música de Porto Rico. Sempre escuto Ricky Martin.
Jesus Cristo não deve ser adorado?
Jesus de Nazaré ou eu?
Jesus de Nazaré.
Não. Ele teve uma função, que foi destruir o diabo e tirar o pecado do mundo. Não precisamos segui-lo porque o diabo não existe mais.
A estátua do Cristo Redentor, no Rio, deveria então ser destruída?
É totalmente equivocada. As pessoas perdem tempo subindo lá.
Deveria haver uma estátua sua?
Não deveria haver nada lá em cima.
O sr. terá de morrer numa cruz?
Não é necessário. Já houve o sacrifício que tirou o pecado do mundo.
Se fosse necessário, morreria?
Dou minha vida por isso. Sempre recebo ameaças de morte.
Um terceiro Cristo poderia vir?
Não virá. Se estou fazendo o trabalho, para que esperar outro?Sua família o entende?
Dos 5 filhos, 2 estão no ministério. Os demais ainda estão se convencendo das evidências. Minha primeira mulher não entendeu.
sr. gostaria de dizer algo mais?
Tento convencer todas as pessoas que conheço. Por isso, eu o convido a estudar (minha doutrina). Posso dizer que você é um abençoado, um predestinado e que há um espírito perfeito oculto dentro de você.
Fonte: O Estado de S.Paulo
Colaboração: Ricardo Costa

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CONCEITUANDO TEOLOGIA REFORMADA

Teologia
A palavra “teologia” resulta da junção dos termos gregos: theos (“Deus”) e logos (“estudo”, “tratado”, “discurso”). Platão (427-347 a.C.) usou esse vocábulo com o sentido de história de mitos e lendas dos deuses contada pelos poetas.[1] Na Grécia antiga, os poetas foram os primeiros a se intitular teólogos “por comporem versos em honra aos deuses”,[2] uma vez que teologia referia-se às discussões filosóficas a respeito de seres divinos (teogonias) e do mundo (cosmogonias).
No final do século II, Clemente de Alexandria (c. 150-c. 215) contrapôs theologia a mythologia. Aquela, na condição de verdade cristã a respeito de Deus, era superior às histórias da mitologia pagã.
A palavra “teologia” parece ter sido incorporada à linguagem cristã nos séculos IV e V. Referia-se à genuína compreensão das Escrituras. Contudo, o emprego estava restrito ao conhecimento a respeito da pessoa de Deus.[3] A partir de Theologia christiana, obra de Abelardo (1079-1142), passou a designar um corpo de doutrina.[4]
Os pais da Igreja cognominaram o evangelista João de “o teólogo”, por tratar mais detalhadamente do “relacionamento internodas pessoas da Trindade”.[5] Gregório de Nazianzo (c. 330-389) também recebeu esse título, especialmente pela defesa da divindade de Cristo. João Calvino (1509-1564) foi denominado “o Teólogo” por Filipe Melanchthon (1497-1560).
Limitando-se à etimologia, a disciplina “teologia” normalmente é definida como “ciência que trata de Deus”[6], “pensamento ou raciocínio sobre Deus”. Agostinho (354-430) a define como “razão ou discurso sobre a divindade”.[7] Mesmo no étimo, a concepção não é unívoca. A teologia pode ser concebida como Deus falando dele (o conhecimento que tem de si) ou o homem falando de Deus (o saber que tem acerca do Senhor); ambas são interpretações possíveis.
Outra conceituação comum: teologia é a “ciência da religião”. Essa definição, além de genérica, carece de conceituação do que significa “religião”: se está sendo considerada “subjetivamente” (a soma total das manifestações religiosas) ou “objetivamente” (as obrigações do homem conforme as prescrições divinas). Seja qual for a escolha, teremos dificuldade em conceituar “teologia”.
A teologia pode ser definida operacionalmente como o estudo sistemático da revelação especial de Deus registrada nas Escrituras, tendo por finalidade glorificar a Deus por meio do conhecimento da sua Palavra e da obediência à ela. “O tema e o conteúdo da teologia é a Revelação de Deus.”[8] Dessa concepção, seguindo a linha do teólogo reformado Kuyper (1837-1920),[9] subentende-se que:
1. A teologia nunca é “arquétipa”, mas “éctipa”;[10] não é gerada pelo esforço de nossa observação de Deus, mas é o resultado da revelação soberana e pessoal de Deus. Uma teologia arquétipa pertence somente a Deus, porque apenas ele se conhece perfeitamente, tendo até ciência completa do seu conhecimento perfeito. Por isso, a teologia sempre será o efeito da ação reveladora, inspiradora e iluminadora de Deus através do Espírito; nunca é a causa primeira; sempre é o efeito da ação primeira de Deus em revelar-se. Em todo e qualquer enfoque que dermos à realidade, isto deve ser considerado: “No princípio Deus...”. A teologia sempre é “... relativa à revelação de Deus. Deus precede e o homem acompanha. Este ato seguinte, este serviço, são pensamentos humanos concernentes ao conhecimento de Deus”.[11]
2. A teologia não termina em conhecimento teórico e abstrato, antes se plenifica no conhecimento prático e existencial de Deus através das Escrituras e da iluminação do Espírito. Conhecer a Deus é obedecer a seus mandamentos. Fazer teologia é tarefa da Igreja; não é um estudo descompromissado feito por transeuntes acadêmicos. Brunner (1889-1966) afirma: “Pensamento dogmático não é somente pensar sobre a fé, é um pensar crendo”. [12]
Teologia reformada
Trata-se da teologia oriunda da Reforma (calvinista) em distinção à luterana. O designativo “reformada” é preferível ao “calvinista”[13] — ainda que o empreguemos indistintamente —, considerando o fato de que a teologia reformada não provém estritamente de Calvino.[14]
[1]A República, 7.ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 378b-3; 379a.
[2]AGOSTINHO, A cidade de Deus, XVIII.14.
[3]Cf. MCGRATH. Alister E, Historical Theology, p. 1.
[4]Cf. A. H. STRONG, Systematic Theology, p. 1.
[5]A. H. STRONG, Systematic Theology, p. 1.
[6]Louis BERKHOF (1873-1957) diz que em geral os teólogos reformados conceberam esta definição (Introduccion a la Teologia Sistemática, p. 30).
[7]AGOSTINHO.A cidade de Deus, vol. 1, VIII.1, p. 301.
[8]John MACKAY, Prefacio a la Teologia Cristiana, p. 28.
[9]Principles of Sacred Theology, § 60, p. 257s.
[10]Éctipo vem do grego ektupon (“cópia de um modelo” ou “reflexo de um arquétipo”), passando pelo latim ectypus (“feito em relevo”, “saliente”). É o oposto a arquétipo (do grego archétupon = “original”, “modelo”).
[11]BARTH, Karl, The Faith of the Church, p. 27.
[12] Dogmática, vol. 1, p. 18.
[13]A expressão calvinismo foi introduzida em 1552 por Joacquim Westphal (c. 1510-1574), polemista e pastor luterano em Hamburgo, para referir-se aos conceitos teológicos de Calvino, que deplorou a expressão. Karl Barth disse corretamente: “‘Calvinismo’ é um conceito que devemos aos historiadores modernos. Quando o usarmos, tenhamos a certeza que as Igrejas reformadas do século XVI, do século XVII, e mesmo a do século XVIII, jamais se nomearam ‘calvinistas’” (Calvin, p. 10). Para mais informações, consulte W. S. REID, “Tradição reformada”, em Walter A. ELWELL, Enciclopédia histórico-teológica da Igreja cristã, vol. III, p. 562. Veja também MCGRATH, Alister E. Reformation Thought, p. 9; A Life of John Calvin, p. 202-203.
[14]Cf. MCGRATH, Alister E. Teologia sistemática, histórica e filosófica, p. 99.
FONTE: MAIA, Hermisten. Fundamentos da Teologia Reformada. São Paulo:Mundo Cristão, 2007. pp. 7-9.

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14 de out. de 2007

A INVEJA MATA. MAS TEM CURA

Há muitos séculos, quando a estrutura clerical do cristianismo se valia de dogmas e crendices para sustentar seu poder, surgiu o conceito dos “sete pecados capitais”: aqueles considerados fundamentais, raízes de todos os outros. Em oposição a eles, foi criada a lista das “virtudes cardeais”, cada qual um contraponto ao respectivo desvio de caráter. Se, de um lado, havia algo de maniqueísta nesta concepção, por outro também servia como uma espécie de referência às diferentes faces do mal que se abriga no coração do ser humano depois da Queda e às atitudes antagônicas que correspondem ao perfil de quem se assume como “nascido de novo”.Em Inveja e contentamento, Eduardo Rosa Pedreira se dispõe a analisar a manifestação de um desses “pecados capitais” e de sua antítese, e o faz dentro da dimensão de cada lar. Neste livro desafiador e original, Eduardo faz ao leitor uma proposta ousada e de dupla via: identificar a presença e a influência da inveja nos relacionamentos familiares e cultivar as virtudes que não apenas são capazes de neutralizar o efeito do mal, como ainda fortalecer os laços relacionais e a saúde espiritual de pais e filhos.
Sobre o autor:
Eduardo Rosa Pedreira é pastor presbiteriano, mestre e doutor em Teologia pela PUC-RJ e líder da Comunidade Presbiteriana da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

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AS BASES DA ECLESIOLOGIA

Eclesiologia é a modalidade da teologia que estuda os assuntos concernentes à igreja.
A igreja não é um clube ou um ajuntamento social (se fosse, a sociologia e o estudo da administração de empresas seriam suficientes para interpretá-la). Ela é uma realidade espiritual. Por isso, é preciso um referencial transcendental para explicá-la. Esse referencial, em sentido bíblico, é a cristologia (doutrina sobre a pessoa e a ação de Deus Filho, Jesus Cristo) e a pneumatologia (doutrina acerca da pessoa e da ação de Deus Espírito Santo).
Outro ponto importante é a metáfora da Igreja como Corpo de Cristo. A expressão não aparece nos evangelhos nem em Atos, mas em vários textos do apóstolo Paulo (Rm 12:5; Ef 1:22-23; 5:30; Cl 1:18,24 etc.). Ser o "Corpo de Cristo" no mundo não é apenas um privilégio, mas uma grande responsabilidade.
Mas, à luz das Escrituras, o que exatamente significa ser "Corpo de Cristo"? É o que veremos a seguir.
UNIDADE ORGÂNICA NA QUAL TODOS TÊM UMA FUNÇÃO
O ensino apostólico sobre o aspecto orgânico da igreja encontra-se em 1Coríntios 12:12ss. Com base no funcionamento dos membros e órgãos do corpo humano, Paulo ensina o ideal divino para a igreja: todos os cristãos devem trabalhar; individualmente, cada um tem uma função ou responsabilidade a cumprir. De maneira inovadora, ele afirma que não somos membros de qualquer corpo, mas do Corpo de Cristo (v. 27; cf. tb. Ef 4:12,15-16; 5:29b-30).
Nesse Corpo, não há membro mais importante que outro; nenhum é dispensável, nem mesmo os considerados mais fracos ou até mesmo desprezíveis (v. 14-22). Em Romanos 12:5, Paulo segue a mesma linha de raciocínio: as capacidades são diferentes, mas todas são importantes, porque são originadas na mesma fonte: Cristo. A diversidade produz inestimável riqueza e, como diz certa expressão contemporânea, "agrega valor" ao Corpo.
A Igreja precisa (re)descobrir isso com urgência. Onde não se enfatiza o ensino bíblico da Igreja como Corpo de Cristo, os cultos são transformados em shows, megaigrejas são valorizadas (nestas, é praticamente impossível o crescimento espiritual de todos os membros, bem como falta espaço para todos trabalharem) e apenas o carisma do líder é valorizado.
Contra essas tendências que seguem uma lógica mais mundana e secularizada que bíblica e espiritual, é preciso ressaltar com veemência o ensino da Igreja como organismo vivo, cujo cabeça é o Senhor Jesus, e não como organização mercantilista.
É fato que nem todos executam funções na igreja. Todavia, é inegável que cada membro tem um papel a desempenhar, visando ao bem-estar e à saúde do corpo de Cristo.
Alguns, mesmo sinceros na fé, se dizem incapacitados de cumprir tarefas na Igreja. Quem pensa assim precisa descobrir sua verdadeira capacidade. Como? Pelo serviço e não mediante testes psicotécnicos e preenchimento de formulários, como alguns especialistas em crescimento de igreja sugerem. Basta se envolver em um ministério ou uma atividade da igreja. Na ocupação que se sentir bem, será aquela, provavelmente, para que foi comissionado por Cristo. Quando todos trabalham, o Corpo desenvolve saúde, e aí então pode crescer de maneira integral. Conforme o pensamento de John Mackay:
Quando todos os "santos" tomam a sério a sua chamada à santidade, expressando no pensamento e na vida tudo quanto é implicado no pertencer-se a Jesus Cristo, verdadeiramente será edificada a Igreja, que é o Corpo de Cristo. Cada um dos membros estará de saúde perfeita e perfeitamente desempenhará a sua função especial. Então, sob a direção dos líderes por Cristo indicados, e pela congregação reconhecidos, para conduzirem a vida da Igreja, o Corpo, como um todo, funcionará harmoniosamente, em obediência a Cristo, e estará equipado para o serviço coletivo de Cristo. [1]
"A PLENITUDE DAQUELE QUE A TUDO ENCHE EM TODAS AS COISAS"
A expressão Corpo de Cristo também aparece em Efésios 1, mas seu emprego difere completamente de Romanos e 1Coríntios (e mesmo de Efésios 45). Em Romanos e 1Coríntios a ênfase incide sobre o aspecto comunitário da Igreja, mas em Efésios 1 parece que recai na perspectiva cósmica do Corpo de Cristo: "E [Deus] pôs todas as coisas debaixo dos pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu [isto é, Cristo] à igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas" (v. 22-23). Essa afirmação é de difícil compreensão (não é de admirar as diversas tentativas de interpretá-la). O biblista Luís Alonso Schökel aponta algumas:
a) A Igreja sujeito plenifica, completa Cristo, como o corpo completa a cabeça; Cristo plenifica tudo. b) A Igreja está cheia de Cristo, o qual [plenifica tudo]. c) A igreja está cheia daquele que Deus plenificou com sua plenitude (Jo 1,14.16; Cl 1,18-19). [2]
Não pretendemos oferecer uma explicação definitiva dessa passagem. Antes, indicamos pistas para a interpretação desse texto-chave para a compreensão do conceito bíblico de Corpo de Cristo.
O que está claro no texto é o senhorio de Jesus Cristo sobre toda e qualquer realidade, visível ou invisível, material ou espiritual, celeste ou terrestre, angélica ou demoníaca, boa ou má. O Messias é apresentado como Senhor absoluto, acima de tudo e de todos, superior a toda e qualquer autoridade em cada área do universo. Ele é o cabeça tanto do cosmos como da igreja. Nas palavras do teólogo John Stott:
...aquele pois a quem Deus deu à igreja para ser seu cabeça, já era cabeça do universo. Logo, tanto o universo quanto a igreja têm em Jesus Cristo o mesmo cabeça. [3]
Ele também sugere que Efésios 1:23, ao associar o Corpo de Cristo com sua plenitude, faz "descrições sucessivas da igreja":
Estando estes dois quadros em aposição, é natural esperar que os dois ilustrem pelo menos uma verdade semelhante, a saber: o governo de Cristo sobre a sua igreja. A igreja é o seu corpo (ele a dirige); a igreja é sua plenitude (ele a enche). Além disso, os dois quadros ensinam o duplo domínio de Cristo sobre o universo e sobre a igreja. Se por um lado Deus deu Cristo à igreja como cabeça-sobre-todas-as-coisas (v. 22), por outro a igreja é enchida por Cristo que também enche todas as coisas (v. 23). [4]
A igreja, ao longo da história, tem sido perseguida e humilhada. Não obstante, sua honra é maior que se pode imaginar, maior que qualquer outra instituição na terra poderia dispor; afinal, a Igreja tem como cabeça aquele que é o cabeça do cosmos.
O ESPÍRITO E A IGREJA
Com a cristologia, a pneumatologia é base para a produção da teologia eclesiológica. A igreja é formada por seguidores de Jesus, que se submetem ao seu senhorio, e ninguém confessa a Jesus Cristo como Senhor da sua vida a não ser pela ação do Espírito Santo (1Co 12:3). Por isso, a Igreja é uma comunidade pneumatológica.
Na teologia contemporânea, Jürgen Moltmann se destaca por sua reflexão sobre a igreja como comunidade pneumatológica:
A igreja como comunidade de pecadores justificados, a comunhão dos libertados por Cristo, que experimenta a salvação e vive em ação de graças, está a caminho de cumprir o significado da história de Cristo. Com seus olhos fixos em Cristo, [ela] vive no Espírito Santo e então é em si mesma o início e o desejo ardente do futuro da nova criação. [Ela] proclama a Cristo somente; mas o fato de a igreja proclamá-lo já é sinal de esperança [...] Na ceia do Senhor a igreja relembra a morte de Cristo e a faz presente, o que leva à vida, e esse fato é uma antecipação da paz por vir. A igreja confessa Jesus, o crucificado, como Senhor, mas o reino de Deus é antecipado nessa confissão [...] A comunidade e a comunhão de Cristo [com a] igreja acontecem "no Espírito Santo" [...] Como comunidade histórica de Cristo, por conseguinte, a igreja é a criação escatológica do Espírito. [5]
A ação do Espírito Santo como doador de dons espirituais (carismas) aos membros do Corpo de Cristo é especialmente apresentada em 1Coríntios 12. O dom espiritual é a capacitação para a realização de um ministério no Corpo. Essa ação tem objetivo duplo:
1. Promover a saúde do corpo - a saúde não está diretamente relacionada ao saldo bancário, nem depende dele, ou à imponência arquitetônica do templo onde a Igreja se reúne; está associada, sim, ao pleno exercício dos ministérios pelos membros, e só acontece quando os dons do Espírito são vivenciados.
2. Glorificar a Cristo, Senhor da Igreja - Cristo é glorificado quando seus seguidores vivenciam a experiência de ser igreja com base nos direcionamentos bíblicos. Uma das possibilidades está na prática dos dons do Espírito (cf. Jo 16:13-14a).
A igreja evangélica brasileira sofreu com muitas discussões e debates sobre o tema dos dons espirituais nos anos 1970 e parte da década de 1980. Era candente e intensa a discussão sobre que dons seriam os mais importantes, sobre a contemporaneidade ou a cessação de alguns dons e sobre temas relacionados. Evangélicos carismáticos ou pentecostais e evangélicos "tradicionais" acusavam-se mutuamente de incorreção teológica e de praticarem uma interpretação bíblica equivocada. Atualmente não se vê a mesma polêmica. A ascensão do neopentecostalismo a partir da década de 1990 deslocou o foco da discussão para a busca de bênçãos materiais, por influência da teologia da prosperidade. Pentecostais e carismáticos clássicos perderam muito de sua visibilidade.
A discussão teológica e o debate sobre métodos corretos de interpretação bíblica têm o seu lugar, caso objetivem orientar o povo de Deus na melhor maneira de seguir e servir a Jesus, e, evidentemente, desde que não promovam a glória de homens nem descambem para agressões desnecessárias. Muito mais importante é usar os dons do Espírito Santo para a edificação do corpo de Cristo, o serviço aos necessitados, a promoção da justiça e a glória do Senhor da igreja.
Uma reflexão sobre a pneumatologia como base para a eclesiologia não pode deixar de mencionar a ação do Espírito como motivador, incentivador e energizador da ação missionária da igreja. Ele é a fonte de poder para o testemunho dos seguidores de Jesus a respeito de seu Senhor (At 1:8). Além disso, o Espírito guia e orienta a igreja no exercício da missão (cf. At 13:1-3). A direção e a capacitação do Espírito são muito mais importantes que recursos financeiros ou tecnológicos.
Refletindo sobre essa questão, David Watson afirma:
O Espírito Santo nunca será preso ou encapsulado nas minúsculas categorias de nossa mente pequenina. Ele é o Espírito do Deus eterno, cuja preocupação primária consiste em que o povo de Deus se envolva com a tarefa da missão; e lamentavelmente essa preocupação ou iniciativa nem sempre será encontrada entre a liderança da igreja. Em seu lugar pode haver reprovação ou até mesmo oposição ao zelo missionário do Espírito. Não é de admirar que muito da motivação e dos métodos da evangelização de hoje deixem a desejar. Mas precisamos uma vez mais da perspectiva da igreja primitiva, que estava tão inflamada pelo Espírito da missão, que se regozijavam sempre que Cristo era proclamado (Fp 1:18). [6]
Notas:
[1]A ordem de Deus e a desordem do homem, p. 119.
[2]A Bíblia do Peregrino (comentário a Efésios 1:22-23).
[3]A mensagem de Efésios, p. 37.
[4]Idem, p. 41.
[5]The Church in the Power of the Spirit, p. 33.
[6]I Believe in the Church, p. 174.
Fonte: CALDAS, Carlos. Fundamentos da Teologia da Igreja. São Paulo:Mundo Cristão, 2007. pp.14-20.

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